Primeiro de Abril de 2024 – Budapeste não é cinza

Cheguei a Budapeste no dia seguinte a um Domingo de Páscoa e por lá descobri que uma cidade nunca é uma cidade só. A dialética diria que existem ao menos três – a cidade que esperamos encontrar (ainda no nervoso aeroporto ou no portal de hospedagem), a cidade que encontramos e a cidade-síntese das duas primeiras (e tão irreal quanto). 

Expectativas tinha muitas, todas cinzentas. Parti de Lisboa. E lá o céu acinzentava – eterno outono arrastado desde o ano anterior. Mas havia outro cinza – muito mais antigo. No começo dos anos Setenta enchiam-me os olhos as velhas enciclopédia de fascículos – a Geografia Universal e a Enciclopédia Disney. E me acostumara com fotos do Parlamento Húngaro e do Bastião do Pescador – este um palácio com pouco a ver com o nome. Mas na minha cabeça de criança e de adulto Budapeste era cinza – espécie de lugar amaldiçoado por um rei de contos de fadas que condenara as cores a não existirem. Não só lá – não conseguia imaginar o Leste Europeu a não ser como uma eterna sombra. Creio saber por quê: a propaganda estadunidense nos fazia ver os países do outro lado como tristes, Inverno europeu de pintura velha, cinzas enfim.

Despedi-me dos amigos lisboetas e em sonolento começo de tarde desembarquei em aeroporto, longe da cidade. Passei da sala de bagagens, logo à esquerda o pressuroso balcão da Prefeitura com funcionários idem. Comprei a passagem do ônibus 100 e o passe de cinco dias a flanar. E já naquele momento descobri – Budapeste não é cinza.


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