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Mostrando postagens de maio, 2025

Das coisas escondidas em busca de Santos Dumont

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  “O que o senhor está lendo?” - esse senhor soava como “siô” e eu tive vergonha do abismo social que me fazia ter a oportunidade de ler um livro que aquele senhor jamais teria. Em nossa volta as montanhas de Minas. Eu buscava o lugar de nascimento de Santos Dumont. Descobri-o na cidade que hoje de maneira banal ganhou o nome do inventor – devia ter continuado o nome antigo, Palmira. A criança Alberto viveu ali só seis anos – suficientes para fazer os primeiros desenhos. Na praça central perguntei sobre um ônibus para a casa natal de SD. Tomei-o. Cheio. Parou em uma fábrica de cimento. E lá todos saíram. Eram trabalhadores. Era o único passeante. Perguntei como ir à casa do homem. E disseram que na estrada passava outro ônibus para lá. Sentei-me no meio fio. Saquei meu livro. E então um senhor que esperava outro ônibus fez a pergunta. O livro era “Das coisas escondidas desde a Fundação do Mundo”, de René Girard, um clássico da antropologia. Resumi o livro o melhor que pude....

Fantasmas de João Pessoa: Anayde Beiriz

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  Na história do Brasil uma pessoa, uma mulher, uma professora de 25 anos, Anayde Beiriz. Sua bela e trágica história permeia as lembranças dessa cidade que até ganhou novo nome por causa da chamada Revolução de 1930. Era um país abalado pela crise econômica mundial de 1929, que já vinha de sucessivas revoltas militares, que a classe média se vinha afastando da oligarquia agrária e que as próprias elites agrárias batiam boca. Uma eleição desonesta não resolvera nada. O lado perdedor pensava em revolta. Hesitava e rugia como cão prestes ao bote. Faltava uma fagulha. A fagulha foi essa jovem, que era namorada de um homem mais velho, João Dantas, que era aliado de um coronel do interior, José Pereira, que era inimigo do governador do estado, João Pessoa, que era aliado do chefe nacional das oligarquias de oposição, Getúlio Vargas, que era inimigo do Presidente da República Washington Luís. Neste imbróglio de luta pelo Poder a Polícia invadiu a casa de João Dantas e tomou fotos e c...

Fantasmas de João Pessoa: João Pessoa

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  Confesso, sou contra cidades com nome de pessoas. Homenagens, como os usuários dos ônibus, são passageiras. Parece-me uma decisão emocional com consequências permanentes. João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque é talvez o homem mais homenageado do país. Um Busca CEP deu mais de mil ruas com seu nome. Uma busca em avenidas deu quase quinhentas. No entanto o seu currículo de advogado e depois magistrado na Justiça Militar sugere, mais que brilho da inteligência, o resplendor de ter nascido com os parentes certos. Para ser exato, com o seu tio Presidente da República Epitácio da Silva Pessoa, que por sua vez refulgira ao ser sobrinho do Barão de Lucena mas aí já é outra história. A memória de João Pessoa não teria passado de meia dúzia de ruas em seu estado – mas mudou isso quando aceitou ser o Vice dos gaúchos que procuravam alguém do assim chamado Norte para se opor aos paulistas. E mesmo isso não teria mudado muito, se não tivesse sido assassinado em passeio quase suicida pelo ...

A Lusitana gira o Mundo

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  “O Mundo gira, a Lusitana roda” e esse dizer de pouco sentido saudou todos os visitantes e migrantes que vinham do Nordeste para o Rio. Que a essa altura já vinham ansiosos pela chegada: ficava na entrada da avenida Brasil, a entroncar na rodovia que vinha do Norte, chamada na gíria de Rio-Bahia mas que tinha o código BR-116. (Como cultura inútil: o número 1 na frente significa uma estrada que corta o país no sentid o da longitude. Se fosse 2 seria na horizontal). O Mundo e a Lusitana eram o sinal para começar a calçar os sapatos e ajeitar o cabelo após 48 horas de ônibus. As novas gerações não sabem o que era viajar dois dias ou um pouco mais em um ônibus que não arriava as cadeiras e que tinha o sofisticado e enganoso nome de semileito – eq eu sorte delas que não sabem. De Fortaleza partiam duas companhias, a Expresso Fortaleza e a Cearense, se me recordo. Isso lá pelos anos setenta. Trezentos, oitocentos, mil quilômetros e o Rio não chegava. Nos Mil ainda não estava sequer n...

Realeza a do leite

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  E  eu não sabia onde ficava Realeza. Não o sabia há meio século e, confesso, continuei sem sabê-lo até cinco minutos atrás, quando procurei pelo mapa do computador. Eu e os doze anos que tinha quando a vi pela última vez nos lembramos apenas de um sabor: essa cidadezinha do interior de Minas tinha o melhor leite do mundo. Servido em copo de vidro, sobre a banca de metal, por atendentes de branco, que se engalfinhavam em dar vazão aos ansiosos fregueses que cada ônibus interestadual despejava e que meia hora depois recolhia a esvaziar o ambiente. Por duas vezes passei por Realeza no Ônibus semileito Fortaleza-Rio, cada vez em ida e volta. Da primeira, em 1972, pouco lembro. A segunda, com doze, em 1974, marcou-me. O Ônibus da há muito inexistente Expresso Fortaleza parava nesse lugarejo mineiro para uma pausa. Depois entendi por quê: é o cruzamento entre a Rio-Bahia e a Vitória-Belo Horizonte. Com os ossos maltratados por umas trinta horas de viagem-tortura os passageiros s...

O Plebeu do Frango

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  Poucos casos há na História Universal de pessoas que abandonaram as lantejoulas da realeza em favor da vida simples de pessoa comum. O general Diocleciano viu a barafunda em que se esbatia o Império Romano, tomou o poder, dividiu o Império em partes mais administráveis e depois renunciou a tudo, considerando terminada sua missão. Pietro da Morrone foi escolhido Papa pelos cardeais cansados da corrupção no Vaticano. O problema é que a mesma corrupção cansou também o piedoso Pietro, já conhecido como Papa Celestino V, e este renunciou em poucos meses. Eduardo VIII, rei da Inglaterra, preferiu renunciar a viver longe de sua amada Wally Simpson. E ao passear pelas praias do Piauí encontrei outro caso. O município praiano de lá se chama Luís Correa, e é praticamente um anexo de Parnaíba, cidade bem maior. Passando por Luís Correa vi a placa “Plebeu do Frango”. Poucos quarteirões depois, “Plebeu do Frango”. E noutra ponta da cidade lá estava de novo o “Plebeu do Frango”. Era uma pe...

O mais famoso dos cajueiros

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  Conhece o cajueiro mais famoso do mundo? – Sim, disse eu, perto de Natal. “Não, aquele é o maior cajueiro do mundo. O mais famoso é aqui!” Eu passeava as ruas de Parnaíba, Piauí, com o professor Lauro Campos, antigo prefeito da cidade. Eu me hospedara na vizinha e praiana cidade de Luiz Correa e perguntara a um agente de turismo se havia alguém que masse a cidade. E ele me apresentou àquele intelectual e historiador. O “mais famoso cajueiro” me trouxe à mente um nome de que mal me lembrava, de que os brasileiros leitores mal lembram. Humberto de Campos nasceu por aquela terra, limite entre Maranhão e Piauí. Encarnação dos ditados sobre a volubilidade do mundo, nas primeiras décadas do século XX foi autor best-seller, deputado, membro da Academia Brasileira de Letras e editor de revistas que vendiam horrores. E agora restava um visitante acompanhado por um historiador local ao lado de um cajueiro em terreno limpo mas sem graça nenhuma, ao lado de um colégio. Aquele cajueir...

Metal do Diabo

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  ...e os ministros, membros da família real, Presidente e gerentes da mineradora se dispersaram, tomaram umas Coca-Colas no palácio e depois as limusines. A multidão se espalhou no parque a caminho da saída, assustando as vacas e cavalos de raça. Já não havia nada a fazer. Eles haviam enterrado o dono daquilo tudo. Zenon Omonte ficou só.   “Finalmente acabou a xaropada”, pensou ele quando da cripta surgiram duendes de lama negra e pupilas de estanho 99,99%. Eles cortaram facilmente o caixão e carregaram Omonte cada vez mais fundo. E numa caverna de 2000 graus centígrados um dançarino da olhos de vidro, chifres de serpentes e dentes de crocodilo o recebeu: - Entra, compadre. Vamos experimentar um novo método de refino. Mais lucro para você. É mais ou menos assim que o escritor boliviano Augusto Céspedes imaginou a entrada no Inferno não de Zenon Omonte, que nunca existiu, mas de Simon Patiño, um dos cinco ou seis homens mais ricos do mundo enquanto a Bolívia era um dos c...

Bem-vindo ao Rio Grande

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Minhas impressões de lá são como um daqueles filmes de cineclube – um retalho de cenas mais insólitas que interessantes. Começou na Rodoviária de Porto Alegre. Em uma das caixas da enorme bateria de guichês disse que queria comprar uma passagem para São Miguel das Missões. A moça respondeu - Não existe esse lugar. Assim mesmo, convicção total e me senti como em um conto fantástico de Borges [que como argentino não era de muito longe dali] como algum peregrino em busca de uma terra que só existe na imaginação de alguns teólogos medievais. Balbuciei que São Miguel das Missões existia, eram as missões, sabe, aquelas antigas, jesuítas, índios guaranis, o filme “A Missão” de Roland Joffe, etc. De nada valeu. Tive de ir à chefe das caixas, que sabia que a cidade existia. Talvez tenha assistido ao filme. Perguntou o nome da caixa pouco informada, mas não disse. Não queria provocar a demissão de ninguém. A segunda impressão foi na rodoviária da cidadezinha. O ônibus parou, desci com minh...

No Peru fui Barbosa

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Nunca utilizei muito meu penúltimo sobrenome. Não gosto dele. Pouco tem a ver com a história da família e além disso não gosto mesmo. Assim como não gosto do último, que não significa nada. Quantos Silvas ou Paulos Silvas haverá nesse país? Utilizo meu segundo nome, Avelino, mas é outra história. Tomei o trem de Cuzco até Machu Picchu. Era como uma jornada ao princípio dos tempos, com perdão do drama. O trem carregado de turistas serpenteava pela beira do rio Urubamba. Este é um dos candidatos a nascente do Amazonas. Muita selva e muita corredeira. Rio selvagem. Eu no vagão pensava que alguém não duraria meia dúzia de segundos se caísse ali. Em torno do rio verdadeiros dentes de pedra de centenas de metros se erguiam. Sobre um deles havia a Cidade Perdida dos Incas, Machu Picchu. Trem parou. Precisávamos fazer um transbordo para um pequeno ônibus para subir o morro de pedra. Um guia chamava pessoa após pessoa. Só que meu nome não chegava. Eu já me preocupava. Fora esquecido? Houver...

Na Bolívia conheci Copacabana

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  Eu não conhecia Copacabana. Vivi muito tempo no Rio mas não conhecia Copacabana. Morei no Flamengo, estudei no Botafogo, trabalhei no Humaitá mas não conhecia Copacabana. Bem, é claro que falo de outra. Desta outra, só soube que existia quando tomei um ônibus da Bolívia para o Peru. Nossa Senhora de Aparecida é padroeira do Brasil, Nossa Senhora de Copacabana é padroeira de Bolívia. Como a nossa, a deles é o nome de uma cidade. A nossa é filhote da deles. Um barco vindo do Peru no Século XVIII trouxe uma réplica daquela Nossa Senhora para certo bairro no Rio e o resto é história. Fica em um pequeno alto na beira do lago Titicaca. Há um santuário singelo, branco, com uma praça em frente. Peguei a bolsa e desci, achei hotelzinho na rua. Depois continuei o caminho. Lago grande, não se vê a margem mais distante, quase mar. Do outro lado, o Peru. Do lado direito um quartel do 4º Distrito Naval da Marinha da Bolívia. Eterna frustração por não ter mar. Do outro a praia, deserta a pe...

Um livro me revela a Bolívia

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  Estava em La Paz, Bolívia, cheio de frio e temor do Soroche , o mal das alturas, e aquela obra mal editada e capa de desenho amadorístico me chamou a atenção. Entrara em livraria com o curioso nome de Los Amigos del Libro e lá estava o livro do qual nunca ouvira falar chamado Repete , de um autor para mim igualmente anônimo chamado Jesus Lara. Nem sei por que o comprei. A Guerra do Chaco (1932-1935) pôs em confronto dois dos países mais miseráveis da América, Paraguai e Bolívia, pela posse de região mais miserável ainda chamada Chaco Boreal. Essa guerra chamou Jesus Lara, boliviano, para o seu destino. Uma guerra que hoje poucos lembram que existiu, mesmo nos países envolvidos, mas que não pareceu insignificante assim a suas vítimas. São suas memórias do conflito. Repete me ensinou mais sobre a Bolívia que todos os folhetos de turismo. Um país cindido entre uma elite branca descendente de espanhóis e as populações indígenas Quechua e Aimara. O nome repete era um apelido que ...

O taco de ouro

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  Nunca tinha ouvido falar dele até então. De fato, tirando um colega meu de faculdade e de alguns Presidentes nunca ouvido falar de nenhum boliviano. Até que desembarquei de um ônibus com minha calça jeans, bolsa e muita imprudência juvenil naquela cidade ao pé dos Andes. Eu pensara, de maneira simplista: Bolívia - país pobre. Cochabamba - cidade pobre. Mas um dos palácios mais belos que já vi encontrei por lá. Procurei no guia de turismo, estava lá, Los Portales, como atração da cidade. Um táxi me levou. Los Portales era o Palácio (na verdade um dos palácios) de Antenor Patiño, o tal de que nunca ouvira falar. Esse boliviano descobriu talvez o maior veio do melhor estanho do mundo quando a demanda por esse minério aumentava muito. Tornou-se o quinto ou sexto homem mais rico do mundo. Não que isso tenha feiro muito bem à Bolívia, que era o quinto ou sexto país mais pobre. Los Portales começa nos jardins com réplicas em mármore de estátuas parisienses e continua na hoje sala ...

A Guerra que não aconteceu enquanto eu estava lá

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  “Bolivianos! El mar es nuestro por derecho. Es nuestro deber reconquistarlo!” Eu espiava o cartaz de propaganda de serviço militar na parede da estaçãozinha do apelidado “Trem da Morte”. Não só os dizeres mas o desenho – as belicosas palavras ilustravam uma praia sendo invadida desde o interior por tanques, soldados e aviões. O Homem aos Vinte e Sete anos se sente imortal e eu tinha vinte sete em Corumbá, fronteira com a Bolívia, quando resolvi passear depois de defender a dissertação de mestrado, sem reserva de hotel nem nenhuma das precauções que hoje me atulham as viagens. Tive o primeiro contato com a raposice política histórica. O natural seria que Corumbá estivesse do lado de cá do rio, este seria a fronteira lógica. Mas o espertíssimo Marques do Pombal mandou fundarem a cidade do lado de lá para ganhar mais um terreninho. Marquês Raposa. Tomei a vacina contra a febre amarela e lá fui, poucos quilômetros dentro da Bolívia, em estação chamada Puerto Quijarro. E lá esta...

A batalha brasileira que nunca existiu

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Estava em ônibus entupido de brasileiros em excursão de Roma a Nápoles. Uma guia italiana com bom conhecimento da língua portuguesa fazia as honras do país, dando uma informação ou outra. Em cert o momento apontou para um morro à esquerda. “Aquele morro se chama Monte Cassino”. Certo. “Naquele morro aconteceu uma terrível batalha na Segunda Guerra Mundial”. Certíssimo. “Tentando subir aquele monte morreram trinta mil brasileiros!” Considerando que foram apenas vinte e cinco mil brasileiros para a guerra na Itália, teria sido necessário que morresse todo mundo e ainda assim se ficaria a dever cinco mil. A conta, como dizem, não fecha. Esperei uma parada do ônibus. Fui à guia. Expliquei com a suavidade possível a objeção matemática. E que a Força brasileira nunca lutou na batalha de Monte CASSINO, mas na de Monte CASTELO. É parecido mas não tem nada a ver uma com a outra. Para começar ficam a uns quatrocentos quilômetros de distância uma da outra, e quando ocorreu Monte Cassino os ...

Garibaldi, heróis de muitos mundos

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E lá está ele, em estátua, equestre, a metros do solo como a apontar a Eternidade. Está aqui em Milão, no Rio Grande do Sul, Argentina, Uruguai, França, Estados Unidos, Portugal, seria difícil apontar um país do mundo que não o monumentalize. E mesmo quem não fez estátuas, difícil um em que não tenha fãs. Giuseppe Garibaldi em vida já era um monumento a si mesmo: louro, olhos azuis, cabelos ao vento, em seu cavalo e com a inevitável camisa vermelha, esse italiano nascido na França tornado brasileiro, uruguaio e argentino utilizava com antecipação os recursos do marketing pessoal. Artesãos faziam pesos de papéis com sua silhueta e gente desde Lincoln até Engels engrossava seu fã-clube, sem falar em Alexandre Dumas (pai) que o entrevistou e escreveu-lhe a biografia. E meu professor de história Ernando no Colégio Santo Inácio me falou daquele aventureiro que nada tinha a ver conosco e se meteu no Brasil. Agora vejo seu monumento na praça Cairoli em Milão e tiro as inevitáveis selfies....

Pedro, de Gand ao Brasil

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Procurei Pedro de Magalhães em Gand e é claro que não o encontrei, primeiro porque perambulava pela Europa havia meses e meus calcanhares mal cabiam nos tênis, de tão inchados. Pedro era de lá. Ou quase. Nasceu em Braga, Portugal, mas seus pais eram da cidade de Gand atulhada de turistas na qual devoro um filé com batata e cenoura. Daí veio seu nome histórico, Pedro ou (Pero) de Magalhães Gândavo, sendo que esse último não um sobrenome mas uma alusão. A segunda razão por que não o encontrei era cronológica: o Gândavo nasceu talvez em 1540, de qualquer forma alguns séculos antes de eu lá chegar. Veio a dar com os constados no Brasil e por falar em costados ou costas ele as tinha quentes: Foi uma das poucas pessoas que, ao publicar sua obra, conseguiu que a prefaciasse um certo Luís. Luís Vaz. De Camões. O Gândavo não quis fazer literatura mas propaganda: objetivava atrair migrantes e conseguiu o acordo do Ofício da Santa Inquisição em Évora para a publicação de sua “História da Provínci...

Fernando Maurício conhecia a Alfama

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Lisboa é Fado, Fado é Alfama e Alfama é Amália Rodrigues – isso dizem as agências de turismo e as agências de turismo como sempre estão erradas. Não erradas, distorcidas. Não distorcidas, simplificadas. É certo dizer que Amália foi a fadista mais popular no exterior e nome conhecidíssimo no Brasil dos anos 50 e 60. É certo que a Alfama é o grande bairro boêmio de Portugal. Mas é errado dizer que Alfama era o país dela. Amália era na verdade de Alcântara, bairro portuário ao norte. O grande fadista de Alfama se chamava Fernando Maurício. Escreveu um dos mais belos fados de nome mal escolhido, “Na Igreja da Santo Estêvão”. Pensei que fosse uma canção religiosa. Nada disso. Na velha Alfama de meio século atrás Fernando Maurício cantava a velha Alfama de meio século antes – uma saudade da saudade que encarna o espírito do Fado. E canta que era ao lado da tal igreja que os fadistas se encontravam para noitadas nada religiosas. Escolhido que não foi pelos departamentos de turismo Fernand...

Brasil sem Peso nem Régua no rio Douro

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Por duas vezes pensei estar na Borda do Mundo, audaciosamente onde nenhum homem [ou, com menor pretensão, nenhum brasileiro jamais esteve] para fazer uma paródia à abertura de Jornada nas Estrelas]. A segunda foi em Dublin, na Irlanda. A primeira vez começou quando aos bocejos tomei o autocarro na brava estação da Campanhã cedinho no Porto, bordejei o rio e entrei em um barco de excursão pelo rio Douro. Imaginava-me em espreguiçadeira no convés ensolarado a espiar (não sem culpa na consciência) a labuta alheia. Um vizinho meu foi vinhateiro. Disse que o serviço de colher uvas com um cesto às costas é tão pesado que ele preferiu vir a Lisboa ser mecânico de automóveis [aqueles automóveis dos anos 70...] Uma chuva desbaratou meus planos. Não houve espreguiçadeira. Chegamos a um lugar de cuja existência não desconfiava com o nome de Peso da Régua. Vagueei pela cidade. Sentia-me na borda do mundo, livre de tudo, longe de todos, não, aqui ninguém sabe que o Ceará existe. Entrei em caf...

Mafra que não aconteceu

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 M afra, não há problemas em Mafra. Ou houve um, pelo menos do meu pequeno ponto de vista. Que aconteceu em junho de 1970. Ou poderia ter acontecido, mas não. Mafra queda a poucas dezenas de quilômetros de Lisboa e a UNESCO, os guias nos autocarros (ônibus) das empresas de turismo e o Memorial do Convento de José Saramago não cessam de dizer (não sem pompa) que se trata de Patrimônio da Humanidade. De fato o Convento-Palácio de Dom João V impressiona, é dos maiores palácios que já vi, que qualquer um já viu. E o que aconteceu nesse portentoso em junho de 1970? Nada, e esse é o problema. Não foi mês especial para Mafra nem para ninguém nem mesmo para mim que nele completei oito anos. Muitos anos depois já maduro fui a Mafra. Subi ao segundo andar do Palácio. E me vi em corredor que percorre a fachada longitudinalmente em perspectiva iluminista perfeita de arcos barrocos seguidas por outros arcos barrocos, que ocultam pinturas de ninfas espremidas entre esculturas de elfos. E ...

Lisboa, doçura às 3 da manhã

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Há coisas que só acontecem em Lisboa! (Na verdade, isso é a corruptela não-futebolística de um ditado que dizia “Há coisas que só acontecem no Botafogo!”) Mas é verdade. Eu voltava de outros lugares na cidade. De fato, o meu bairro dos Arroios é o melhor lugar de Lisboa para se voltar à noite – o que significa que não é o melhor para se passar o dia. Na Liberdade há a Cinemateca Portuguesa e suas sessões tardias. Em Belém se acumulam os monumentos Patrimônio da Humanidade e as eternas filas de turistas. Nos Arroios tudo está fechado pouco depois das 8 da noite. É lugar de sono. Exceto por uma porta, pela qual passava na saída do metro, depois do Hospital e da austera estátua de Fernando de Magalhães, presente do Governo do Chile, havia sempre uns homens em uma porta. Voltava ás 22 hs, lá estavam eles. Às 22:30, havia outros. Notei que pela porta se descia para um porão. Pensei que era uma boate. De excelente isolamento acústico, para não ouvir nada. E todas as noites era assim. ...

Cícero e o Papa Leão

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E lá foi ele em transporte multimodal, incluindo jumento, cavalo, trem Maria-Fumaça e navio a vapor igualmente fumaça a enfrentar o enjoo marítimo e enfrentar, principalmente, aquele prediozão de mármore, museu a céu aberto, Michelângelo, Bernini e a alma do apóstolo Pedro para se defender diante dos sérios homens que ocupavam aquilo lá. E foi assim que Cícero Romão Batista, padre desconhecido do desconhecido Brasil chegou à Basílica do Vaticano para se defender de acusação de heresia. Curioso o Padre Cícero – seus adversários o acusaram de tudo menos de ter casos amorosos, por assim dizer. Mas pelas outras acusações teve ele de se defender. Ficou uns três meses na Cidade Eterna e matou o tempo com o que chamaríamos hoje de turismo religioso: visitou catacumbas e igrejas. Não se sabe bem o resultado de seu processo mas se seus inimigos queriam liquidá-lo o tiro saiu pela culatra: para os sertões do Canindé ou do Pajeú Roma era mais distante que Marte é para nós hoje. O Padre Cíce...

As lambretas da velha Itália

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  Lambretas! Quem se lembra delas? E quem as esquece? Esse veículo de pequenas rodas a convidar um acidente ao mínimo desnível da rua e a frente chapada de cor metálica sem graça (certo, as de hoje são pretas, mas vá) – puxam uma Itália por poucos vivida e por muitos não esquecida. Já estava havia um par de dias e Milão não estava sendo muito Milão. Certo, havia os bifes à milanesa, a catedral e os chocolates hiperdensos mas faltava algo – e só senti o que o faltava quando o sinal fechou em frente ao Teatro alla Scala e à frente dos carros se acumularam duas, três, quinzes lambretas.   As lambretas na minha memória puxaram tudo: Rita Pavone a exigir datemi um martelo , Gigliola Cinquetti a choramingar Dio come ti amo e até Bobby Solo num vozeirão capaz de endireitar a Torre de Pisa a bradar Prendi questa mano, Zingaraaaaaa... além de blusões de couro, cigarros em rapazes de cabelo rente e garotas esguias na garupa, de gola rolê e penteado rabo-de-cavalo, esta era a Dolce ...

Eugênio, Veneza e Brasil

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  De queixo na mão a contemplar o Pôr do Sol em Veneza, Eugênio pensava no Brasil. Talvez não para si: para a filha. Ou talvez não pensasse. Monsieur Eugênio Rosa de Beauharnais como todo filho de pai dominador tinha sua pobre cabeça ocupada. Seu Pai não era seu pai: era o marido de sua mãe. E sua família de origem não era poderosa – se tornara tal quando sua mãe decidiu sabe-se lá por que atrelar seu destino a um oficialzinho francês chato, sério e, pior que tudo, baixinho. E assim Napoleão e Josefina se casaram e o filho desta, Eugênio, de João-Ninguém se tornou um Eugênio-Ninguém - só que com um padrasto poderoso. O padrastão invadiu a Itália, reuniu parte do país em novo Reino da Itália e dois segundos de profunda meditação o levaram a concluir que a coroa de rei assentaria melhor em Sua Augusta Cabeça. Só que nem mesmo ele tinha o dom da ubiquidade – autodeclarado que fora Imperador da França. Precisava de alguém para esquentar o real trono italiano quando ele estivesse...

Alfama a Inconhecível

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  A Alfama desafia o geômetra grego Euclides: por lá a reta nunca é o caminho mais próximo entre dois pontos. Olhar o mapa e dizer É só ir em frente é se condenar a horas em becos em que se pergunta se se esteve ali. O bairro medieval de Lisboa foi salvo pela sua própria geologia do terremoto de 1755, que arrasou a parte Baixa da cidade e poupou seus altos, os altos nos quais os árabes fizeram um aranzel de ruelas nas quais comecei a me escarafunchar a sério na melancólica Lisboa da pandemia. Viajei-a [pois a Alfama não se visita, se viaja] pela vez primeira em 1994, outro milênio, outro tempo, outro eu. Nada sabia: só que o Autocarro pararia em certo Largo que depois soube que era em frente ao Museu do Fado. Esse largo é a fronteira entre a cidade lógica e atual com seus metrôs e pistas de velocidade e a cidade como era quando os cavaleiros de Afonso Henriques por lá forçavam com seus cavalos armados a gente a se espremer para o lado. Certo, os cavaleiros lá não mais cavalga...