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Mostrando postagens de junho, 2025

Venha cantar na minha Freguesia!

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  “Vá cantar noutra Freguesia” – diz-se no Brasil e ninguém entende direito o que é Freguesia. É das primeiras palavras vivenciadas no país de Amália. Especialmente para aquele que gosta de cultura. No Brasil há quem não saiba direito o nome de seu bairro e menos ainda sabem o Distrito em que habitam – aliás talvez a maioria não saiba que seu município se divide em distritos. Pudera, aqui os distritos não passam em geral de subdivisões das cidades lideradas por funcionários sem muitos poderes. Não é o caso luso. Não há distritos mas Freguesias. E cada uma tem sua liderança, as Juntas de Freguesia, que são eleitas. Têm poderes e orçamento. Muitos sabem os nomes do/a presidente da Junta. Quanto à cultura, no Brasil sua promoção é em geral centralizada. Muito é feito pelo Ministério da Cultura e pelas Secretarias estaduais, ou então por entidades paraestatais como o Serviço Social do Comércio – SESC. Poucos municípios têm secretarias de cultura significativas, quase sempre as capi...

Os fantasmas de Saint-Michel

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  Ah, o Café Saint-Paul do Boulevard Saint-Michel ! “No coração da Rive Gauche, a romântica Zona Boêmia de Paris” como dizem as agências de turismo, e nisso as agências de turismo pela primeira vez não mentem. Ou ao menos não muito. A tomar meu cappuccino e croissant com manteiga ao lado do sebo (bouquiniste) e a ver os VLTs passarem a caminho de Montparnasse penso que, mais que romantismo, o Café e sua região me lembram fantasmagoria. Fantasmagoria parisiense, claro, de charme. Nada de monótonas visagens de tias velhas ou de pedras jogadas no telhado. O próprio reto e largo Boulevard Saint-Michel me lembra por que o Barão Haussmann mandou demolir a semi-favelinha que por lá havia e construir uma avenidona tão larga e reta. [Esse Barão foi o destruidor da velha Paris e o construidor da nova, na transição anunciada e lamentada por Baudelaire]. Trata-se demanda política. Os pobres de Paris tinham o péssimo hábito [de acordo com os ricos de Paris] de tirar o sossego desses últi...

Filosofia do Bife à Milanesa

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  “Vorrei una Cotoletta alla milanese, per favore” - e o garçom se escarafunchou para a cozinha entre as mesas com mesas quadriculadas, muito turísticas apesar de não estarmos em lugar de turismo. A Viale Tolstoi evidentemente homenageia um escritor russo e o próprio bairro de Lorenteggio não é exatamente o queridinho da turma das selfies. Toda a minha vida sabia dos bifes à milanesa – saber é uma coisa, gostar deles é outra e nunca me atrairiam muito aquelas grossas camadas de farrinha frita engelhada a pingar óleo que recobriam a carne na distante Fortaleza e no resto do Brasil inteiro. Só depois soube que aquilo era típico da cidade de Milão, e mesmo outras cidades na Itália respeitam tal primado. As cidades da Itália – pois fora dela há controvérsias – aliás fala-se em mundo globalizado mas se disputa ferozmente certos primados de comida. Viena diz que inventou o Schnitzel e que ele tem o primado – para mim é um bife à   milanesa, mas vá. A pastelaria Belém em Lisboa a...

Eu e os anglicanos

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  “Em tempos incertos as pessoas se voltam para homens fortes, que propõe respostas simples para os problemas da sociedade” – ouvi sua voz firme vinda do púlpito e nunca em minha vida tinha visto um púlpito ocupado. Mesmo em igrejas históricas não passa de ornamento. Eu era uma pilha de preconceito: Já decidira que a Igreja Anglicana era uma velharia ambulante, decadente e sem razão de ser criada por um Rei maluco que queria se divorciar, quinhentos anos atrás. Foi com essa mentalidade que entrei na Catedral Anglicana de São Paulo, em dia miraculosamente com sol, Londres em novembro. Parecia até uma igreja católica, ou quase: a média de idade dos sacerdotes era bem mais baixa que na maioria das missas católicas, povoadas por padres de cabelos cor de neve. Mas não só isso: ao lado do celebrante, um rapaz de menos de 40, havia uma celebrante – também jovem. Além de uma diaconisa, uma mulher negra. O sacerdote abriu agradecendo ao bispo de certa cidade, que ali estava de visita e ...

Os afrancesados cafés de Fortaleza

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  Charles Baudelaire, Victor Hugo e Catherine Deneuve diriam [se tivessem conhecimento de causa]: se quer um café autenticamente afrancesado vá ao polo de Restaurantes da Varjota em Fortaleza e mesmo para algum centro de comércio local da Asa Norte de Brasília [fora os inevitáveis Rio e São Paulo]. De fato os cafés de Fortaleza derramam palavras francesas no menu [nada de cardápio] e multiplicam croissants e crepes e chocolate au lait. Os garçons mastigam Bonsoir e S´il vous plaît e Edith Piaf e Charles Aznavour comeriam soltos na vitrola se vitrola houvesse – as seleções de músicas de java e acordeon musette provavelmente constam em lista preparada pelo algoritmo de algum streaming – nada muito romântica uma seleção feita por um computador, mas enfim. E a Torre Eiffel, panorâmicas de Boulevards e o ubíquo Arco de Triunfo em fotos e gravuras cobrem as paredes. Enfim os cafés de Fortaleza são muito mais franceses que aqueles de Paris, com suas atendentes muitas vezes nascidas no...

Ti voglio bene Eu te amo, Federica Minia

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  Esqueçam o decote de Sofia Loren, os cabelos de Claúdia Cardinale e as pernas de Gina Lollobrigida. [Se quiser ser inclusivo esqueça até o olhar de Marcello Mastroianni].   A mais sexy de todas as italianas, de todas as pessoas jamais nascidas no país do Ravioli e da Pizza se chama Federica Minia. Como todos eu não a conhecia. Como todos apaixonei-me por ela ao adentrar pela vez primeiríssima um vagão do Metro de Milão, turista acidental e desorientado vindo de ônibus de bairro distante e preocupado em guardar meu bilhete de três dias para não perdê-lo. [Como todos e como todas – moderna e desconstruída, seu charme e sensualidade traspassam os preconceitos]. Sua voz acalma, orienta em todos os momentos inclusive aqueles de emergência. Com ela aprendi que as estações têm nome duplo, para os locais e para os turistas. A estação Cadorna-Triennale junta o nome local, Cadorna, daquele que é usado pelos visitantes da Trienal de Design. Cairoli-Castello junta ao nome rotineiro ...

Os Selos e os Dias

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  “Dieci francoboli, per favore. In Brasile.” – e após uns três dias de Milão meu italiano já havia melhorado mas não o suficiente para saber como se dizia “selos”. O tradutor do celular me informou que os coloridos retangulozinhos de papel colável em cartas se diziam francoboli , e essa palavra me mastigou como pedrinha no meio do feijão quando a pronunciei pela primeira vez para a funcionária da Poste Italiane, os correios do País da Bota, numa agência escondidinha em Brera, o bairro do design de moda, a uns três quarteirões da famosa Pinacoteca. Ela sorriu, não sei por simpatia ou pelo meu italiano com leves toques de Ceará e respingos de Rio. Comprei os dez selos, enviei os postais. Talvez seja uma das últimas vezes que o faça, ou que alguém o faça. No próprio portal oficial está escrito ”Poste Italiane - Servizi postali, finanziari e assicurativi”. Financeiros? Seguros? Pensaria eu com meus botões se a camiseta os tivesse. O que Correios têm a ver com isso? E antes fosse só ...

Bruxelas Poesia e Batatas

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  - É “Stump”, disse ele a esticar o “u”. – Estávamos na Galerie Saint-Hubert na confluência com a Galerie des Princes, perto da inevitável Grand Place em Bruxelas com seus sobrados do século XVII conhecida dos turistas e não longe do manequinho, aquela estatuazinha a fazer pipi eterno na qual não acho muita graça mas os guias de turismo acham [devem ter alguma razão, afinal estamos em uma democracia]. Eu vinha da livraria Tropismos a sobraçar minhas recém-compradas coletâneas do trágico poeta Émile Verhaeren [depois falo mais desse melancólico talento que um dia dedicou um livro “Com Emoção, ao homem que costumava ser”] e arriei na cadeira do primeiro Café que encontrei, atormentado pela conhecida dor no calcanhar. Na distante Fortaleza eu fazia um prato, “Stoemp”, e lá estava ele, típico belga. Pedi-o. O garçom me corrigiu a pronúncia. Simpático, na verdade. Eu pronunciei à maneira alemã, como se houvesse trema sobre o “o” e ele respondeu à maneira flamenga, com “u”. E trouxe o...

Os fantasmas das ruas de Milão

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  Parece nome de peça de Shakespeare ou Alexandre Dumas filho – nenhum dos dois priorizava o conhecimento antropológico dos países ao desenvolvimento dos enredos que faziam. Mas Milão tem fantasmas nas ruas – e não me refiro a Mussolini, que tardiamente recebeu o tratamento de salame pendurado de baixo a alto em uma praça sem nenhum sinal. O primeiro deles veio logo na estação de trem de chegada a partir do aeroporto – Cadorna. Luigi Cadorna foi um general da Primeira Guerra Mundial, estúpido como todo general da Primeira Guerra Mundial e cujo grande feito e única tática era jogar soldados aos borbotões contra metralhadoras e fortificações com a filosofia de Não deu certo, tenta-se de novo. E tentar ele o fez. Onze vezes fez a batalha em um lugar só, o rio Isonzo. Com o sangue dos outros é fácil. Da estação Cadorna tomei um táxi para a frua dos Vespri Siciliani, uma revolta que ocorreu lá pelo século XIII quando sicilianos revoltados contra ocupantes franceses galanteadores man...

Em Milão com o Destruidor

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  Topei com o Destruidor do Mundo quando subi ao segundo andar do Palazzo na Via dei Vespri Siciliani em Milão. A propósito, Palazzo nada mais é do que o nosso prosaico Prédio. A propósito II, o Destruidor não era único mas o representante de muitos. E ali estava ele – bermuda, sandálias e um altura que não passava de mediana. Alguns diriam que não me enganasse – são esses, ou os como esses, que destruirão o Mundo, a Civilização ou mais modestamente a Europa. O rapaz me perguntou se alguém batera á minha porta durante à noite. Eu disse que não. E ele continuou que havia um vizinho maluco que perturbava e caiu em si do meu italiano com feijoada. “Você é brasiliano?” – me perguntou. Eu disse que era brasileiro sim. Ele também. Havia muito morava na Itália e isso estava na cara, ou melhor, no sotaque, na verdade uma mistura das duas línguas na qual a língua natal sumia docemente sob um vagalhão de italianismos. “Você afitou esse apartamento?” – ele me perguntou. Affitare – alu...

Brasília no conflito entre a Ordem e o Caos. Oba!

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  “Uma esmolinha para a ceguinha... Oba!” Começo é claro por procurar uma imagem que daqui a pouco ninguém saberá mais o que significa: de cartão-postal. Pode parecer incrível para as gerações futuras ou atuais mas por tempos as pessoas compravam cartões de papel mais ou menos rígido em geral com boa impressão e fotos de lugares conhecidos e enviavam a outros por esse serviço também em decadência chamado correio, e de Brasília o cartão-postal mais conhecido é o da catedral. Começo o turismo na cidade por ela. No centro de uma superfície de concreto sem árvores e com poucos bancos – bem Brasília, completamente Niemeyer, perfeitamente clean, lá está ela com suas arquicélebres curvas colunas de concreto. Tudo muito claro, muito lógico. Essa a beleza da catedral, essa a de Brasília. Esta é também sua fraqueza. Em Brasília qualquer vestígio de injustiça salta aos olhos, ouvidos e todos os sentidos como nódoa em lençol. Noutras cidades, produto do acaso e dos conflitos, o caos pare...

Brasília Quarta-feira Oito horas

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  " De onde vem todo esse trânsito”? perguntei ao Uber enquanto voávamos na rodovia a caminho do Museu do Catetinho. Na nossa faixa. No sentido oposto um jumento manco transportaria mais rápido que os carros parados. Era o começo da manhã e era Brasília. “Valparaíso, doutor” – Não fica no Chile? pensei em meu desconhecimento. “Valparaíso, Park Way, Gama”... – Continuou o rapaz. Conversador. Park Way? Pensei de novo. Não haveria nome melhor para um bairro na capital de um país lusófono? À direita crescia uma mancha de cimento, uma cidade com os prédios inutilmente elevados da maioria das grandes cidades brasileiras. “Aquela é Taguatinga?” perguntei. Era a única subcidade que eu conhecia de nome. “Não, Águas Claras. Essa aqui é o Núcleo Bandeirante” – e apontou para uma mancha um pouco menor. Não muito. “Moto” – disse o motorista ao apontar para um grupelho de ambulâncias e homens de colete de paramédico na outra pista.   – “Todos os dias pegam um”. Antes que eu responde...

E assim surgiu Babel

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  Há fronteiras dentro de uma fronteira e foi aquela viagem para o extremo-sul do país que mo ensinou. O limite entre o Brasil e o Uruguai é dado pelo Arroio Chuí – isso eu sabia desde o quarto ano do primário ou menos. Mais especificamente, de um lado fica Chuí, e do outro Chuy, a nossa e a deles, duas cidades divididas por colunas de cimento que hoje formam o canteiro central de uma avenida. Bem perto, mais para dentro do Brasil, há outra cidade, Santa Vitória do Palmar. Lá morava o rapaz porteiro do hotel. “Essa é toda brasileira. Chuí é   brasileira mas tem 90% de uruguaios”. E eu pude ouvir isso no português pesadíssimo dos outros empregados do hotel. Entre as duas cidades havia uma fronteira linguística antes da fronteira política, entre o português e o guasca, o linguajar misto português-espanhol da fronteira. A arrogância me fez pensar “Estou no meu país e quem quiser que entenda minha língua. Falarei português”. Eu falava. Não entendiam. Eu falava de novo. Ent...

E a Casa não mais Queima

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  O coração de La Paz se chama Plaza Murillo . E foi a esta praça que um garoto vindo da parte baixa da cidade, calça jeans e tendo recém-defendido a dissertação do mestrado chegou. De cara pôde entender por que o emprego de Presidente da simpática República era destituído de qualquer garantia. Na virada dos setenta para os oitenta os nomes de generais se sucediam uns aos outros: Juan Pereda Asbun, David Arancibia, Alberto Natusch Busch, Luiz Garcia Meza, Guido Calderón... sempre com o mesmo roteiro – alguns militares davam uma avaliação baixa para o mandatário do mês (para fazer um paralelo com o Uber), reuniam os tanques, divulgavam um pronunciamento e todos sabiam estar sob nova Administração. Menos complicado que a Democracia, sem dúvida. Se era melhor, é sujeito a discussões. Cinco minutos na Plaza Murillo me fizeram entender por que tanta insegura empregatícia. Nunca vi, nunca vi um prédio tão cheio de portas como o Palácio da Presidência da Bolívia. Era facílimo de ser in...

E eu que não conhecia Vila-Vila

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  Quando se tem vinte e cinco anos se está no topo do mundo. Às vezes literalmente, ou quase. Era essa a idade que tinha quando o trem que tomei em Cochabamba com destino a Potosí parou nesse lugarejo no interior da Bolívia. Eram aqueles tempos em que turistas brasileiros não eram assim tão comuns, e quanto a migrantes, bem, até os anos 80 o Brasil absorvia populações, e não as expulsava – havia poucos a morar no exterior. Um brasileiro podia viajar audaciosamente para lugares onde nenhum homem (ou nenhum nacional) jamais esteve, para lembrar a abertura de Star Trek, o Jornada nas Estrelas. E era assim que eu me senti quando o trem descarrilhou naquela estação perdida no Andes. Literalmente quase no topo do mundo – de fato a maior parte do mundo se situa abaixo dessa aldeiazinha boliviana no Departamento de Cochabamba. Descem os passageiros, os empregados da ferrovia a acenar com orientações enquanto o maquinista rangia a locomotiva a fazer movimentos de ida e vinda nos vagões ...

O chefe manda

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  O Catetinho nada tem de palácio. Seu nome é em verdade uma doce ironia em relação ao Catete, este sim um palácio, da Presidência da República na época. A época: a segunda metade da década de 1950, quando um Presidente chamado Juscelino Kubitschek de Oliveira decidiu desempoeirar velhos propósitos de mudança da capital para o interior e construir uma cidade a partir do zero no sertão de Goiás. Enquanto se construía o Presidente precisava de um lugar para ficar – na verdade uma construção da madeira, comprida e de dois andares, a que se deu o apelido de Catetinho. JK teria voado para lá centenas de vezes. Eu não fui tanto mas peguei o ônibus e desembarquei por lá. Hoje é museu. Pode-se perceber os sacrifícios dos que construíram a capital. Ou sua quase loucura, vá. As árvores tortuosas, o solo avermelhado e os cupinzeiros quase da minha altura não deem ter melhorado o astral dos que tinham deixado as praias longe para trabalhar naquela construção. O Diretor do museu me guiava...

A vã-glória da literatura nas praças de Lisboa

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  Quem vem do aeroporto para os hotéis do centro de Lisboa passa sobe um morro, no lugar chamado Areeiro, e o desce para outro denominado Arroios. No princípio dessa descida há uma praçola semicircular encravada entre prédios baixinhos. Como não faz parte do circuito turístico os visitantes só passam por ela sem nada saber. Nela há uma estátua e o nome do homenageado: o jornalista carioca João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, o João do Rio. E quem passa dela, na direção da estação dos trens (comboios) que trafegam em direção à outra margem do Tejo depara com outra praça, essa só conhecida em geral pelos viajantes que a veem pela janela do vagão: praça Afrânio Peixoto, médico e membro da Academia Brasileira de Letras. Esses nomes valem por uma lição de modéstia nos anseios de imortalidade literária. Esses senhores foram homenageados por Lisboa quando estavam no seu auge. A fama passou e hoje bem poucos no Brasil ou em Portugal os considerariam entre os maiores d...

Amarcord Viçosa

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  Acordei muito cedo, ninguém em pé. Era domingo. Ainda de pijama saí à calçada, cheguei à esquina da Praça da Matriz. E mal pude ver as copas das árvores frondosas – estavam esmaecidas pela neblina. Era a primeira vez que a via e, ser praiano tropical que eu era, apelidei aquilo de “nuvem baixa”. Fazia sentido. Viçosa do Ceará fica em uma serra, já perto da divisa com o Piauí. Como a cidade era alta, natural que as nuvens ficassem na altura de cidade. Essa é a climatologia de quem tem oito anos, e essa era minha idade. Minha visão daquela cidade – daquela cidade daquele tempo – não é linear - são pequenas impressões ou impressões de uma pessoa pequena. De vez em quando me colocavam em um carro e me levavam por uma estrada. Os carros eram de uma empresa e me lembro de um deles, um automóvel comprido com espaço para carga muito comum na época, que se chamava Chevrolet Veraneio. Havia dois motoristas, Ernani e Gil. Certa vez esse Ernani acordou no meio da tarde lá em Viçosa. Não ...

Acampamento Almofala

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  Os árabes (talvez aqueles da península ibérica) falavam Al-Mahalla quando queriam dizer acampamento ou lugar onde se residiu algum tempo. E eu ao descer daquele ônibus no calor cearense depois de umas seis horas a partir de Fortaleza e a sentir a brisa salobra do mar lá perto não tinha a mínima ideia de como aquele nome tinha vindo batizar aquela aldeiazinha praiana indígena com uma doce corruptela brasílica: Almofala. Uns dizem que foi em 1712, outros em 1760, o fato é que o distante rei português determinou que se construísse a Igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Tremembés. Os tremembés – ainda hoje a tribo está por lá, esbatida mas não sumida. Visitei a praia de Almofala e sua Igreja de um barroco ingênuo e tocante, mas o mais curioso foi conviver com uma comunidade pesqueira. Na maré baixa eu vi paliçadas cravadas na areia do fundo. Eram currais – peixe entra em labirinto e não sai. Vi um menino no mar raso, entre duas estacas no mar. Perguntei o que f...

A Catedral e a Serpente

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  “Vipereos mores non violabo” – algo como “não violarei os costumes da serpente” – e esse lema ao qual não falta idiotice se espalha pela cidade de Milão – junto com o não mais pacífico brasão de uma serpente engolindo um homem, um coitado, diríamos.   Eram o Brasão e o lema dos Visconti, a família que com um olho no poder e outro na espada teve o domínio da cidade lá pelo começo da Renascença. Foram eles que começaram a construir a catedral. Se no resto do mundo Todos os Caminhos Levam a Roma, em Milão todos os caminhos levam à Piazza del Duomo , a Praça da Catedral. Nas noites as moças da cidade vestem casacos elaboradíssimos e meiões de seda sem mais nada e gravitam para lá. Assim como o preguiçoso turista cearense pega o VLT e em uns trinta minutos está debaixo da Catedral dos Visconti. Os tops da família pensavam em unificar a Itália em um Reino só, com eles como os chefes, óbvio. Algo como uma inveja da família dos Capetos na França. E para isso precisavam de uma c...

Entre dois países, com um navio a se aproximar

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  De um lado o Brasil. Do outro o Paraguai. No meio, o rio. No meio do rio nós, nosso pequeno barco. E a se aproximar de nós aquela enorme forma inexorável como o Destino em tragédia grega. Só que não. Confesso, Porto Murtinho me antipatizou antes mesmo de lá chegar – por causa do nome, Murtinho – ministro da Fazenda da virada do século XIX ao XX, inimigo da indústria nacional, fazedor de recessões. Que nada tem de culpa de seu nome. Tem umas particularidades. Na pousada havia refrigeradores muito potentes do lado de fora dos quartos. Depois descobri: eram pousadas para pescadores, que já poderiam congelar seus peixes sem precisar entrar com eles nos quartos. Fiz amizade com alguns pescadores. E na praçola central ao lado do rio havia uma geladeira – para que as pessoas pudessem fazer seu tereré lá mesmo – e esse é um mate gelado muito popular. Fiquei a pensar o quanto tempo aquela geladeira estaria ainda no lugar em uma grande cidade. Acenei para os pescadores que conhecera,...