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Pelos Cafés do Mundo: Central, de Viena

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O Café Central, o supremo instagramável! O que quer que signifique esta palavra que mistura vontade de aparecer, caricatura e mundo-como-cenário. Os turistas hoje empesteiam a portentosa porta na esquina a partir das 9 hs. Eu [é claro] entre eles. Empesteiam – formam uma fila pela Herrengasse na direção da Catedral a tornar as fotos da entrada bem menos instagramáveis. Herrengasse significa “Aleia dos cavalheiros”, o que quer que isso signifique. E naquela época todos se consideravam cavalheiros – pelo menos os que interessam para nossa história, e todos eram uns chatos. Pelo menos um, vá. Por falar em empestear, Freud parece fazê-lo em todos os cafés tradicionais de Viena. As plaquinhas para turistas e os verbetes da Wikipedia insistem em considera-lo cliente tradicional de todos – e isso para mim apenas torna o ambiente mais pesado. Não consigo imaginar Freud a sorrir. Sempre aquela cara de azia. Azia esta que [espero] não tenha sido contraída ao comer os acepipes do Café Central...

Pelos Cafés do Mundo: Landtmann, de Viena

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  “Só Deus e os morcegos habitam a Igreja de Nossa Senhora da Corrente...” e no Café Landtmann lembrei desse verso. Ledo Ivo o escreveu em Penedo, Alagoas, e eu estava sentado à mesa na beira do Ring. É a avenida que forma um cinturão em torno do Centro de Viena a apertá-lo contra o Danúbio. À minha frente o Burgtheater, que é o Teatro da Cidade, a Universidade de Viena e a Rathaus, que não é Casa do Rato mas do Conselho. Esse é o significado de “Rat”. É a Cãmara de Vereadores da capital da Áustria. Tudo construído pela segunda metade do século XIX em estilo falsamente antigo. “Só a Bruma e os Fantasmas frequentam o Café Landtmann...” – poderia dizer eu sem gosto nenhum e certo exagero – era outubro e não havia brumas. Quanto aos fantasmas, bem, não existiam aqueles ridículos de lençol e correntes a arrastar. Mas era difícil não pensar neles mesmo esperei o Herr Ober [maitre] trazer o meu prataço de Kaiserschmarrn [uma panqueca metida a besta] com o inevitável chocolate quente e ...

Pelos Cafés do Mundo: New York, de Budapeste

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N ele tomei minha segunda lição de como os húngaros conhecem os estrangeiros sem pedir passaporte. Na estação Deak Ferenc Ter do Metrô vi que os funcionários pediam bilhetes das pessoas. Eu mal chegara à cidade e comprara um cartão de cinco dias de transporte público. Eu já me dispunha a explicar que eu não tinha bilhete mas um cartão etc. Mas me deixaram passar. Como quem pensa: “esse é gringo!” Foi minha primeira lição. A segunda vez foi no reputado Café mais belo do mundo. Cheguei pontualmente às oito da manhã. Medida sábia: pelas nove já não havia mais mesa. As moças fardadas me abriram a porta, um sujeito tocava ao piano música clássica húngara, sentei-me à mesa indicada. No mesmo segundo o sujeito mudou para os doces acordes de Tom Jobim. E depois João Gilberto, Astrid e por aí foi. Eu falara em inglês com a atendente, mas foi à porta, baixo, e em inglês. Como soube que eu era da terra do sambão? O Café New York tem esse confuso nome de uma cidade em outra – isso não o demove...

O campeão e sua estátua

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  Tomei o VLT 41. Eu vinha da Gellert Rakpad Emlekko em direção à Becsi utca 61 [o Danúbio não-tão-azul à minha direita] e talvez para não enlouquecer com o caráter impronunciável desses nomes húngaros pensei em Giulite Coutinho, lá por 1984. Perguntaram ao novo presidente da CBF qual era o melhor time que ela já vira jogar. Respondeu: Foi a Hungria de 1954. Desci na tal rua Becsi número 61 [utca é rua] e encontrei o principal responsável por tal feito. Bem, não ele mas sua estátua. Pareceu-me sozinho, a jogar futebol pateticamente de paletó e gravata [quem teve essa ideia imbecil?]. Fazia sol. Desci só. Havia dois botecos mas ninguém dava bola. No entanto nos anos 50 as multidões rugiam seu nome nos estádios: Puskas! Puskas! A seleção da Hungria por ele comandada colecionou proezas: 6x3 na Inglaterra, a primeira vez que os ingleses perderam em casa. 7x1 na revanche. Tinha o hábito de chegar aos 10 minutos de jogo já vencendo por 2 a 0. Com tudo isso, não foi campeão mundial. U...

Aquela esquina naquela Paris

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  O mundo precisa conhecer a esquina da rue de la Huchette com rue de la Harpe! Eu sequer desconfiava que existia quando desembarquei em Orly, embromei até chegar a hora do hotel, comprei um bilhete múltiplo para o metrô com uma simpática francesa no quiosque turístico que desafiou a lenda de que os parisienses são chatos. Logo depois eu sacolejava na Ligne 14 do metrô a estalar de nova e de atraso, inaugurada que fora meses antes para os jogos olímpicos. Emergi a arrastar as malas na estação Saint Michel – Notre Dame – depois soube das razões óbvias: fica ao lado do Boulevard Saint-Michel e a duzentos passos da Notre Dame. Mas só quando despejei minhas malas no hotel e saí para compras em mercadinho inicial levantei a cabeça e vi Paris. E por falar em cabeça, era a mesma Paris que virou a cabeça de Hemingway, cujo hotel fica X com o meu, na Huchette – a mesma rua em que Chet Baker e os músicos negros estadunidenses do jazz se instalaram nos anos vinte e fundaram night-clubs que ...

Venha cantar na minha Freguesia!

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  “Vá cantar noutra Freguesia” – diz-se no Brasil e ninguém entende direito o que é Freguesia. É das primeiras palavras vivenciadas no país de Amália. Especialmente para aquele que gosta de cultura. No Brasil há quem não saiba direito o nome de seu bairro e menos ainda sabem o Distrito em que habitam – aliás talvez a maioria não saiba que seu município se divide em distritos. Pudera, aqui os distritos não passam em geral de subdivisões das cidades lideradas por funcionários sem muitos poderes. Não é o caso luso. Não há distritos mas Freguesias. E cada uma tem sua liderança, as Juntas de Freguesia, que são eleitas. Têm poderes e orçamento. Muitos sabem os nomes do/a presidente da Junta. Quanto à cultura, no Brasil sua promoção é em geral centralizada. Muito é feito pelo Ministério da Cultura e pelas Secretarias estaduais, ou então por entidades paraestatais como o Serviço Social do Comércio – SESC. Poucos municípios têm secretarias de cultura significativas, quase sempre as capi...

Os fantasmas de Saint-Michel

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  Ah, o Café Saint-Paul do Boulevard Saint-Michel ! “No coração da Rive Gauche, a romântica Zona Boêmia de Paris” como dizem as agências de turismo, e nisso as agências de turismo pela primeira vez não mentem. Ou ao menos não muito. A tomar meu cappuccino e croissant com manteiga ao lado do sebo (bouquiniste) e a ver os VLTs passarem a caminho de Montparnasse penso que, mais que romantismo, o Café e sua região me lembram fantasmagoria. Fantasmagoria parisiense, claro, de charme. Nada de monótonas visagens de tias velhas ou de pedras jogadas no telhado. O próprio reto e largo Boulevard Saint-Michel me lembra por que o Barão Haussmann mandou demolir a semi-favelinha que por lá havia e construir uma avenidona tão larga e reta. [Esse Barão foi o destruidor da velha Paris e o construidor da nova, na transição anunciada e lamentada por Baudelaire]. Trata-se demanda política. Os pobres de Paris tinham o péssimo hábito [de acordo com os ricos de Paris] de tirar o sossego desses últi...