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Mostrando postagens de março, 2025

Dois Brasis e o Ceará na Hungria

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 Meu primeiro encontro com a minha brasilidade em Budapeste ocorreu no Metrô. Eles pediam o bilhete de todo mundo e só tinha um cartão de cinco dias. Mas não precisei balbuciar nada – olharam-me como quem pensa “gringo” e me deixaram passar. Fiquei a pensar se o carimbo “estrangeiro” estaria marcado na testa.  O segundo encontro aconteceu quando fui o primeiro a entrar no Café New York, às 8 horas da madrugada. Tem fama de ser o mais luxuoso do mundo. Um pianista tocava algum tema húngaro. No preciso segundo em que me sentei à mesa mudou para uma Bossa Nova. Meu pensamento dessa vez foi se na testa estava anunciado “Brasil”. Meu terceiro esbarro com as minhas origens aconteceu perto da praça Deak Ferenc Ter (“ter” é praça) em restaurante que em letreiros berrantes se anunciava orgulhosamente típico. Comida local em viagem é quase tão mandatória quanto aperto nos aviões e lá entrei. Procurei o mais típico do típico, mas aquela carne ensopada com verduras estava anunciada com o ...

E Encontrei meu quase-parente Francisco II

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 É sempre bem encontrar uma cara conhecida mesmo que não seja uma cara real e nem mesmo muito conhecida mas que tenha a ver, embora não tenha muito.  Do outro lado do Danúbio tive de subir o morro. Nada mais medieval que fazer cidade em cima de morro. Quase sem fôlego entrei na Galeria Nacional de Arte em Budapeste. E foi lá que em grande quadro perto da entrada topei com ele, bem no foco da grande pintura. Uma rápida pesquisa no smartphone com o wi-fi do museu confirmou minhas sociáveis suspeitas – aquele rei Francisco I da Hungria retratado em sua solene coroação no ano de 1792 era o mesmo Francisco II da Áustria. O eterno Chaves perguntaria e o Quico e na verdade nada teria a ver, se aquele coroado senhor não tivesse gerado uma garota cinco anos depois, à qual teve a ideia de chamar Leopoldina, e depois teve a ideia de casá-la com certo príncipe português um tal de Pedro, que passava uma temporada nos cafundós do trópico, um tal de Brasil. E seu neto seria Dom Pedro II, ess...

O Muro das Línguas

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 Um muro divide o Mundo, como um muro partia ao meio Berlim. Ele surge de qualquer lugar, digamos do Brasil, e passa entre os cursos de inglês de luxo e a calçada lá fora, separa as escolas bilíngues das outras e classifica até os empregos em melhores e piores. Esbarrei com um dos braços dessa muralha no centro de Budapeste, onde alguém plantou uma livraria com o prosaico nome de Bestsellers.  A duas ou três esquinas da catedral de Santo Estêvão a livraria corresponde à promessa que os portais de turismo lhe dão: a de ter um setor de livros em inglês. O louro de óculos no balcão logo em frente parecia já esperar minha pergunta e me apontou com displicência o canto onde estavam os livros que uma pessoa-como-eu (leia-se turista) poderia se interessar. Todo o resto do acervo era em húngaro. Em uma poltrona no tal canto pesquisei biografias, a maior parte de gente que não conhecia, ou de fascistinhas dos quais quero distância como o atual chefão do país. Saí com o óbvio: duas hist...

Lajos Kossuth nunca dançou Bossa Nova

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 O panorama se abria do Café na grande praça. Eu vinha da beirada do Danúbio, o Blauen Donau da velha valsa que não é azul coisíssima, vai mais para um cinza-esverdeado. Estava em Budapeste e já colecionara visões de estátuas: a de Peter Falk, ator estadunidense de contestada ascendência local; a de Gyula Andrássy, mais conhecido por ser apaixonado pela inevitável Sissi; e a do meio atulhado conjunto de estátuas encimado por Lajos Kossuth.  Eu observava esse conjunto, cappuccino e croissant na mesa e uma música que achei que reconheci, no som do Café. E reconheci mesmo: era João Gilberto, Bossa Nova, o Brasil a 10 mil quilômetros de distância. A suavidade da bossa-nova música dos de-bem-com-a-vida contrastava com a vida do homenageado. Lajos Kossuth é o grande herói da Hungria, espécie de Tiradentes para a população local e como ele só conhecido em seu país. Sua vida [como de quase todo herói] pulou entre discursos e sangue. Encabeçou revolta contra os austríacos em 1848 que ...

A cidade dos cafés

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 Budapeste se encontra aos fins de tarde e bebe nos muitos cafés. Talvez não Budapeste entendida como seus habitantes – como quase toda cidade europeia atraente quem bebe mesmo são os turistas.  E nem me fale do New York. Com o nome estranho para um café na capital da Hungria, trata-se de presença inevitável nas listas de dez mais belos cafés do mundo e geralmente situado na ponta liderante. Peguei um Tram que nós brasileiros chamamos de VLT na Terez korut e poucos quarteirões depois estava na fachada barroca do Café. Eram 8 horas em ponto e fui o primeiro a entrar.  Recomendo. Pode parecer demasiado cedo mas uma hora depois não havia mais vaga. Ao entrar percebi um rapaz que tocava piano, alguma música tradicional húngara. No mesmo segundo em que me sentei a música mudou para Bossa Nova. Homenagem ao brasileiro aqui. Como ele soube?? Depois ele veio me perguntar se eu estava gostando. Deixei-lhe gorjeta. Quanto ao café em si, não dá para entender tanta beleza – se lugar ...

A Praça Hosok e o Heroísmo mandatório

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 Meus dedos procuravam um lugar chamado Praça Hosok. Procuravam nervosamente – percorriam o mapa do aplicativo e Budapeste pulava no quadradinho do Celular. Nunca me acostumei com esses mapinhas de bits – para mim talvez por saudosismo mapas são aqueles de papel, desdobrados em esquinas a detonar medo de batedores de carteira.  De fato os mapas mesmo de bits se  superpõem e seu resultado é uma cidade. Cada cidade não é uma cidade só mas no mínimo o resultado de uma soma: o habitante e a cidade. E esse habitante é mais ainda mais consciente quanto essa habitação é rápida – ruas, placas e nomes a se sucederem em velocidade de VLT enquanto se tenta engendrar sentido a tudo aquilo – ou seja, quando o habitante é visitante. Tomei uma linha do metrô e só sabia que ao lado dessa Praça Hosok ficava o Museu de Arte – lugar sempre fulcral em cada cidade pela minha geografia pessoal. Depois soube que a linha estreita e sacolejante era uma obra prima de Art-Deco [depois é que percebe...

O Demo respeita a língua húngara

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 Dizem que o Húngaro é a única língua que o Diabo respeita e quase disso tive certeza quando a moça do balcão de turismo do Aeroporto de Budapeste me informou que deveria pegar o ônibus 100 até um lugar chamado Deak Ferenc Ter. Como se pronuncia isso - era o que pensava no fundo do ônibus com medo de as rodinhas da mala a levarem para longe enquanto como sempre em cidade estranha eu mordia os dedos a temer o que me esperava. As calçadas largas e a gente sem pressa me tranquilizaram rápido. Deak Ferenc Ter era uma praça. A partir dela os nomes em húngaro se sucediam. Deveria entrar em estação de metrô, pegar uma linha para a estação Nyugati Palyaudvar e de lá para meu destino, o bravo alojamento na Jokai Utca 24.  Húngaro, húngaro. Toda cidade tem várias geografias – talvez tantas geografias quanto seus habitantes, turistas e as dos mapas online e cada uma delas é real à sua moda. A minha geografia budapestiana se concretizava nos nomes. E aos poucos vi que aqueles nomes cheios...

Primeiro de Abril de 2024 – Budapeste não é cinza

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Cheguei a Budapeste no dia seguinte a um Domingo de Páscoa e por lá descobri que uma cidade nunca é uma cidade só. A dialética diria que existem ao menos três – a cidade que esperamos encontrar (ainda no nervoso aeroporto ou no portal de hospedagem), a cidade que encontramos e a cidade-síntese das duas primeiras (e tão irreal quanto).  Expectativas tinha muitas, todas cinzentas. Parti de Lisboa. E lá o céu acinzentava – eterno outono arrastado desde o ano anterior. Mas havia outro cinza – muito mais antigo. No começo dos anos Setenta enchiam-me os olhos as velhas enciclopédia de fascículos – a Geografia Universal e a Enciclopédia Disney. E me acostumara com fotos do Parlamento Húngaro e do Bastião do Pescador – este um palácio com pouco a ver com o nome. Mas na minha cabeça de criança e de adulto Budapeste era cinza – espécie de lugar amaldiçoado por um rei de contos de fadas que condenara as cores a não existirem. Não só lá – não conseguia imaginar o Leste Europeu a não ser como u...