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Mostrando postagens de abril, 2025

Em busca de Roger Casement, brasileiro-irlandês esquecido

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 Procurei material sobre ele na lojinha do museu do GPO. Não havia livros nem pôsteres. Nem mesmo um chocolate, o que seria o cúmulo do mau gosto, mas vá. Encontrei um imã de geladeira. Ao chegar a Dublin na Irlanda mergulhei em folhetos de turismo e neles aparecia a sigla GPO. Que diacho é GPO, pensei com meus botões brasileiros. Descobri: General Post Office, o Correio Central. Foi nesse prédio que os revolucionários irlandeses de 1916 resistiram ao assalto final das tropas britânicas no seu bem pouco prático Levante da Páscoa – pois começou em um Domingo da Ressurreição. Os chefes da malfadada revolução ganharam nomes de ruas, praças, estátuas. Um deles no entanto permaneceu quase anônimo.  Roger Casement, irlandês, era quase brasileiro – pelo menos assim podemos considerar alguém que morou por doze anos no Rio, em Santos e em Belém. Era cônsul de carreira pelo Império que colonizava o seu país – o Britânico. Menos conhecido era seu envolvimento com os revolucionários irlan...

Pigalle que não mudou

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 Georges Ulmer em velha canção falava de um certo Pigalle. Um certo – para mim era difícil me aventurar do outro lado do Sena. Tinha poucas semanas, muita Paris para conhecer e esse bairro Pigalle me parecia do outro lado do Mundo. Mas fui. Levado pela curiosidade de ver como as coisas mudam. Georges cantava os engolidores de fogo, malabaristas, traficantes de cocaína (os males não eram tão conhecidos na época) e moças que vendem beijos. Claro, no Pigalle de 1944. Há muito, pensei, tudo mudou. Escolhi um ônibus pelo aplicativo e tomei caminho. Via os boulevards a deslizarem pela janela, Paris como sempre. De repente vi uma sex-shop. Visão um tanto rara na cidade. Grandes vitrinas. Mas o curioso é que ao lado havia outra. Também ao lado, mais uma. O ônibus parou. Distraído, nem percebi. Quando um senhor que descia me cutucou a canela com a bengala – C`est ici, Pigalle! – era o ponto final. Georges Ulmer em princípio tinha razão – lá estava a estação de Metrô. Mas também sex-shops. E...

Crêpes, onde está Suzette??

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 Alberto, filho da Rainha Vitória, ficou 60 anos a esperar sua augusta mãe decidir-se a vagar o cargo. (Mais ou menos como o Rei Carlos de hoje). Enquanto esperava, viajava. Em Paris [dizem] uma vendedora de flores lhe deu um buquê. Depois ele compareceu a recepção no hotel do hoteleiro Ritz, hoje nome de Rede, que criara um novo crepe para o convidado. Alberto perguntou o nome. Não havia. Então lembrou da vendedora: Suzette. Muito depois eu cometera tal iguaria em meus arroubos culinários e queria ver o quão distante ficara do autêntico. Revirei Paris em busca do tal Suzette. Percorri a rue de la Harpe, o Boulevard Saint Germain, o Odeon, nada.  Finalmente no Montmartre esbarrei com um sucedâneo. A receita exige entreoutros ingredientes um licor de laranja, tradicionalmente o Grand Marnier. Na creperia não havia o Crêpe Suzette mas havia o Crêpe Grand Marnier. Decepção. É só o disco do crêpe com um fio do licor. Depois provei noutros lugares, também era assim.  O Suzette...

Elementar, meu caro Sherlock

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 Em uma noite de Natal [em 1890, ou 91, por aí] Sherlock Holmes recebeu em seu escritório da Rua Baker 221B um velho chapéu e um ganso abatido, este para ser cozido e devorado na Ceia. Ao seu lado estava o fiel escudeiro Dr. John Watson. A cozinheira, ao preparar o pobre bicho, descobriu uma pedra preciosa que tinha sido roubada dias antes. Inverno europeu, neve, Sherlock & Watson vão investigar no mercadão de Londres, o Covent Garden, cheio de peixe, carne e seus respectivos odores. Em um dia de novembro lá fui eu ao mesmo lugar. Não descobrira nenhuma pedra preciosa mas tinha um mistério a desvendar: se aquele lugar era tão sinistro como eu imaginava quando li as Aventuras de Sherlock Holmes. Encontrei um prédio baixo, extenso na horizontal, parecendo o mercado municipal de tantas cidades brasileiras, hoje tantos deles convertidos para o turismo. E assim o Covent Garden. Esperava [baseado na história] grupos de operários vitorianos a se esfregar as mãos em torno de fogareiros...

O apertamento de Monsieur Poirot

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 E Hercule Poirot desceu na estação Barbican do Metrô de Londres! Saiu pela Aldersgate street, tomou á esquerda em uma ruela chamada Carthusian, dobrou à direita e lá estava a sua casa, o prédio onde morava. Sacou o Samsung A32 G7X e tirou duas fotos além da inevitável selfie. Em verdade o detetive não fez nada disso, por três razões. A primeira e menos importante: Hercule Poirot nunca existiu; se existisse, não teria morado lá; e a terceira razão: quem fez todas essas coisas não foi nenhum detetive baixinho de bigode fino lá dos anos 1930 – fui eu. De todas as encarnações do detetive criado por Agatha Christie [e ela detestava todas] a mais famosa foi a longeva série de TV encabeçada pelo ator David Suchet, de 1989 a 2013. Inicialmente tiveram um problema imobiliário – onde o protagonista moraria? Na mesma época esse prédio dos anos 1930 chamado Florin Court estava vazio para reforma e posterior aluguel. Pagaram algo para a imobiliária, escolheram um apartamento vazio e lá fizeram...

Hercule & Sherlock – the beginnings

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 E Clarissa Miller e Inácio Conan se encontraram em Londres! Eles vinham do interior do país e eram pessoas solares, alegres e otimistas, e ambos tinham o mesmo sonho: ser escritor. E os amigos se encolheram nos casacos a roçar com gente encolhida nos casacos do frio de Londres, quase foram levados na enxurrada de gente na Estação King´s Cross, estranharam porque o Metrô de Londres se chama “Tubo”, as linhas com nomes tétricos (Hammersmith & City) em vez de claras cores como é noutras cidades, se sentiram esmagados pelas construções com poucas janelas e tom ocre, quando não pelo tom cinza, e até a Família Real lhes pareceu mais com a Família Adams, se ela já existisse, claro. E a cabeça dos dois aspirantes a escritor começou a mudar. De delicados sonetos ou histórias amorosas felizes, comendo um horrível peixe com fritas (Fish and chips) em um Pub de náuseas, Clarissa disse: “Penso agora em escrever sobre um baixinho, chato, azarento e cheio de manias, e que só vai pensar em as...

Filosofias de Pinóquio, ilustre filho de Florença

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 Em Florença descobri que esta não é só a terra dos Medici, de Michelangelo, de Dante e Maquiavel. Mas de alguém que talvez tenha sido mais lido e visto no cinema que todos esses. Carlo Collodi, o autor de Pinóquio, era daqui. O famoso bonequinho não era só um mentiroso. Seus conhecimentos se espraiavam por múltiplas áreas da ciência, como se vê em n´As Aventuras de Pinóquio: A história de um boneco (Jandira, SP: Ciranda Cultural, 2022, tradução de Beatriz Camacho): SOBRE POLÍTICA SALARIAL: - E o que ele faz da vida? - É pobre. - Ganha muito? - Ganha o necessário para não ter um tostão no bolso. SOBRE PEDAGOGIA E MEDICINA: - Sim. Porque quero ir à escola e estudar com afinco.  - Olhe para mim! – falou a raposa.  – Por essa paixão estúpida pelos estudos eu perdi uma perna. - Olhe para mim – falou o gato. - Por essa paixão estúpida pelos estudos eu perdi a vista dos dois olhos. SOBRE MEDICINA LEGAL: - Ao meu ver, o boneco está morto de vez, mas, se por alguma desgraça não e...

Obviamente, Londres

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 Só existe algo mais soturno que o prédio construído em 1891 com estrutura de ferro da Walter MacFarlane & Co. de Glasgow, Scotland, e construção e cálculo estrutural de O. Meara e de Sir Barclay Bruce para a Alfândega da República e que hoje serve de Centro Cultural da Caixa Econômica de Fortaleza: são cem ml prédios desse mesmo jeito. Isso é Londres. Ou era. Aldgate East, Tower Hill, Leman street, Whitechapel, Charing Cross, Covent Garden, Piccadily – detrás dessa pletora de nomes se encontra uma cidade que em parte se rendeu a ser um pastiche de Nova Iorque, é certo, mas em parte não. Apertados entre os prédios ainda se vê muito da cidade vitoriana – e as paredes espessas, as janelas esparsas e revestimentos acinzentados, um depois do outro, prédio após prédio, me lembraram da velha Alfândega da minha cidade.  Não só os prédios. Pode-se fazer uma soma: prédios sóbrios, mais neblina invernal, mais poluição carbonífera (na época muito maior), mais as massas de gente anôni...

Alvise que não foi de comboio

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 E Dom Alvise Cadamosto o navegador veio dar com os costados nas costas de Portugal! Deixou as pizzas e canelones nos restaurantes perto da Ponte do Rialto da sua Veneza e, sem nenhum trocadilho infame, farejou as delícias e belezas do Faro, esta que é a capital informal do Sul da Terra Portuguesa. Não veio atrás das Tripas à moda do Porto (cá não há) e tampouco (ao contrário de mim) correu no comboio ferroviário Alfa Pendular desde o Centro de Lisboa. Por tudo isso ao turistar no Faro surpreendi-me ao ver o seu nome a batizar uma placa com o nome de uma pequena ponte. Era a segunda vez que lia esse nome. Na primeira (meio século antes) o Professor Ludovico explicava a Mickey e Pateta que aquele tinha um ilustre antepassado chamado CadaMickey, e que esse era um prefixo comum em Veneza – e deu o tal Cadamosto como exemplo. Desnecessário dizer que essa erudita menção não me veio das obras de Alexandre Herculano ou Shakespeare mas de uma coletânea em fascículos chamada Enciclopédia Di...

Ao vencedor as batatas (fritas)

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 Ah, as batatas de Bruxelas! Nunca tinha ouvido falar delas, sem nenhum desejo de rima. You know: há terras de tudo nesse mundo de Nossa Senhora do Turismo. Existe a terra da feijoada, da panelada, da dobradinha, da torta de maçã, polenta, feijoada, Barreado (alô Morretes!), Cachaça (disputada por quase todos os municípios de Minas e do Nordeste que não se conformam com a primazia que se atribui Viçosa do Ceará), Vinho (disputada por todos os países europeus e metade do resto) mas nunca tinha ouvido falar da Terra da Batata Frita. Aliás nunca imaginei que Batatas Fritas tivessem terra – minha cabeça leiga e distante das coisas do marketing imaginava que uma comida para ter a origem disputada precisava de algum charme, ou dificuldade, lá sei.  Quer dizer, nunca tinha ouvido falar até que botei os pés na capital da Bélgica. Impossível não saber: no centro histórico da cidade pululam as friteries, lojinhas de rua especializadas em batatas fritas, com o único diferencial de um mol...

Alberto da Bélgica do Ceará

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 Bruxelas [como se sabe] dista muito de Quixadá, Aquiraz ou Fortaleza. Malgrado isso, Alberto da Bélgica por duas vezes esteve com certeza em contato com cearenses, e a segunda, a modéstia não me impede de dizê-lo, foi muito mais tranquila.  Topei com estátuas do Rei Alberto II Rei dos Belgas em quase que literalmente em todo lugar que fui. Nos subúrbios, no Centro da cidade, em cimento ou mármore, a cavalo ou a pé. E em nenhuma as minhas selfies foi moleque nem faltou com o respeito à realeza. Bem diferente da primeira vez que Alberto encontrou cearenses. No ano de 1920 Sua Majestade visitou o Brasil. Figuras tão importantes não costumavam viajar na época e o Presidente do Brasil o paraibano Epitácio Pessoa e o país mesmo ficaram fascinados. Construíram o primeiro Hotel de luxo da país, o Copacabana Palace, para o Rei e sua Comitiva. Criaram a primeira Universidade do Brasil, no Rio, para dar a ele o título de Doutor Honoris Causa. E foi feito portentoso cortejo de carros abe...

E assim surgiu o Existencialismo

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 Ah, os croissants sem sentido, os crepes suzette absurdos, as mousses paradoxais e os cappuccinos agnósticos! Porém, mais absurdos do que tudo isso são os preços do Café De Flore, no Boulevard Saint-Germain em Paris, que seria o Templo dos Existencialistas se eles não fossem ateus. Aliás lanço uma hipótese de como se iniciou a Filosofia do Existencialismo. Um dia Sartre tomou o braço de Simone de Beauvoir, chamaram Albert Camus que comprava um jornal, acenaram para Juliette Greco que distraída cantarolava, encontraram Merleau-Ponty que acabava de dar uma aula e foram os cinco amigos de braços dados ao Café De Flore. Horas depois pediram a conta. Ao verem o preço, Sartre, que já tinha os olhos de sapo, arregalou-os mais ainda; Simone disse: Isso é O Absurdo!; Camus retrucou: É completamente Sem Sentido!; Juliette cantou um em nota fá verso sobre o Vazio na sua bolsa e Merleau-Ponty declarou Isso não é Essência, não é Existência, é só um Roubo! Mas não tinha jeito. Era pagar ou cade...

Bom Waterloo para você!

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 Napoleão invadiu a Bélgica e eu já estava lá. Napoleão queria chegar à capital Bruxelas e eu já estava lá. Bem, não exatamente lá, eu estava hospedado num subúrbio, mas estava. Quase nos encontramos em um lugar chamado Waterloo. Quase – ele veio em 1815 e eu uns duzentos e poucos anos depois, o casaco a pesar e eu a me perder no labirinto de trens e ônibus que nem o pessoal de lá entende. Waterloo! Quem não ouviu falar? Eu também, mas por décadas não soube em que país ficava. Era só um nome – Waterloo. E tem sentido – o velho Napô em sua zilionésima guerra queria partir os exércitos inimigos e para isso queria tomar a capital estrangeira mais próxima. Só que no caminho havia três fazendas [a gente ainda as vê, de cima do morro] e uma planície ondulante. Fora a estrad a com o posto de gasolina no qual desci ao sair do ônibus, mas essa não conta. Interessante que esse morro é artificial – foi construído no lugar em que o comando inglês ficou durante a batalha. Lá de cima não vi o fa...

Desesperados Amores no Ônibus em Milão

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 Dante amou desesperadamente Beatriz, Petrarca fez o mesmo em relação a Laura, e eu pensava em qual ônibus pegar para começar meu expediente de turista em Milão. Cruzei a Praça Nápoles e ali estava o ponto.  O VLT 14 é um egotrip, daquelas que todo turista deveria ser obrigado a fazer: dividir espaço com os locais – o olhar vago ou grudado no celular de gente que faz o mesmo caminho duas vezes por dia e nele nada vê de mais. Para mim o percurso é uma descoberta. No ponto em que peguei o VLT havia barras horizontais de metal para as pessoas não caírem nos trilhos. Nelas vi pregados, em papel comum, bilhetes à caneta: Giorgio, 48, procura uma donna carinhosa, bem-humorada... Pietro, 59, quer uma mulher que queira ser feliz... Marcelo, 37, que gosta de viajar, procura... Piero, mecânico de carros, procura sua alma gêmea... Luigi... Umberto... Sempre com um número de celular ao final. Minha primeira reação: alguma mulher responde a isso?? Bem, pelo jeito sim, senão não seriam tant...

A Solidão do Cearense em Petrzalka

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 Filósofos dos mais diversos escarafuncharam a Solidão. De lúgubres perorações sobre a Contemplação do Absurdo da Vida até esperanças de uma vida eterna, de Nietzche a Santo Tomás todos enfrentaram a questão da Busca de Sentido e da Incomunicabilidade Essencial entre os Seres. Nunca, no entanto, jamais um se dispôs a enfrentar a mais dilacerante das solidões: aquela do cearense que se aperreia a visitar um país com uma língua eslava que ninguém, talvez nem mesmo os habitantes entendam. É difícil dizer por que me meti a ir à Eslováquia. Fui talvez levado por uma informação tão geográfica quanto inútil: de Viena a Bratislava é a menor distância entre duas capitais europeias. E eu estava em Viena.  Em uma hora de trem cheguei a Bratislava, ou ao menos assim pensava. Informação só aprendida depois do desastre, soube que a Capital fica do lado de lá do Danúbio. E o trem para do lado de cá, em lugar com excesso de consoantes chamado Petrzalka. Não havia wi-fi. As placas não tinham o...

Paris e a missa

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 Henrique IV foi convidado para ser o Rei da França. Decididamente não o pior dos empregos. Mas havia um senão. Precisaria se converter ao catolicismo, protestante que era. Pensou bem, coçou a real barba e disse: Paris vale bem uma missa! Não foi o que eu disse mas foi coisa parecida, embora uma expressão feia. Eu descera no aeroporto de Orly. Peguei a Linha 14 do metrô, novíssima, inaugurada na Olimpíada. De nada sabia de onde iria ficar: escolhi pelo hotel pelo preço. Afogueado pelas malas desci na estação Saint-Michel, ao lado do rio Sena, e arrastei-me até o Hotel na quina das ruas Harpe e Huchette. Joguei as malas no quarto e fiz o de sempre: sair para umas comprinhas iniciais. Ainda não havia levantado a cabeça na cidade, ocupado com as malas. Ao chegar à rua olhei em volta. E me veio: que cidade bonita do raio que o parta! Decididamente não fui o primeiro estrangeiro a se deslumbrar por Paris. Meu vizinho Ernst Hemingway escreveu mais eloquentemente Paris é uma Festa! Meu vi...

Aperol, Cinzano, Campari e eu

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 Ah, estender as pernas sob a mesa no Café dos japoneses na Piazza del Duomo, a praça da Catedral, a Milano, Bambina! E sentir-se como um Rei. Mais que isso – Napoleão, Júlio César e outros foram a Milão mas nenhum contemplou a Igrejona desde esse ângulo com a Via Mazzini e ao lado da banca de lembranças aos turistas – pelo fato de que pouco existia de tudo isso. Também não havia o Bar Aperol, disputado a filas eternas que se estendem pelos altos da Galeria Vittorio Emanuele. Não sabia que cidades norte-italianas disputam a tapas a primazia de certas bebidas. Já conhecia o Cinzano e o Campari, mas não o Aperol, como sua cor forte, embora talvez não seja só isso que encha o bar mas também a visão da catedral logo ao lado.  A mística das beberagens não para nessa praça. Pega o VLT 14 na direção de Lorenteggio e desce na vizinhança de Naviglio, a região boêmia em volta dos canais. Boêmia leia-se, etílica. Peço um aperitivo no bar mais popular, o Spritz, e me sinto apertado como s...

Viena das alegrias da viúva

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 Volksoper! – gritei a um rapaz que saía assim como eu da estação de Metrô. Ele apontou para uma estrutura arredondada à direita. Agradeci Danke! E para lá corri. Faltava um par de minutos para começar o Musical e eu temia que a decantada pontualidade alemã – ou austríaca, vá – me fechasse a porta do teatro na cara. Volksoper significa literalmente Ópera do Povo. Viena teve sua porção de tristezas – guerras, preconceitos e as teorias de Freud que são tudo menos eufóricas. E de alegrias – e de tais alegrias Franz Lehar teve muita parte. Alegrias que começavam em Viena e se espalhavam por teatros de Paris e Milão e chegavam ao Rio, aquele Rio da belle époque, da Avenida Central e da Confeitaria Colombo até hoje resistente.  Em 1905 esse compositor austríaco inventou uma história [maluca, como toda boa comédia] de uma viúva enriquecida que se mudara para Paris. O governo de seu pequeno país, temeroso que ela se casasse com um francês e levasse toda sua fortuna para o exterior, en...

Émile Verhaeren, quem diria, acabou na Pauliceia

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 Tive outro – mais um, na verdade – encontro com Émile Verhaeren ontem nas páginas da Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade que comprei em saldo de ponta de estoque na Bienal do Livro do Ceará. Não é a primeira vez que esbarro com citações e homenagens a esse poeta belga.  Antes de viajar para Bélgica pesquisei para saber quais os grandes nomes da literatura belga. Só conhecia esse poeta e pensava que agora a situação sem dúvida havia mudado, pensava. Das páginas da Wikipedia me veio que o grande poeta – de fato o grande literato da Bélgica continuava a ser Émile Verhaeren. Comprei um exemplar baratinho das Cidades Tentaculares – sua obra sobre os amo res e horrores da cidade industrial – na Galeria Saint Hubert, bem no Centro de Bruxelas. Sentei-me em café próximo, pedi um Stoemp típico do país, que também cometo em casa, e compreendi por que o exemplar era barato - era livro escolar, como acontece com os poetas oficiais, por assim dizer. Bom livro. Os tentáculos da cidade...

Apaixonado em Milão

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 Innamorati a Milano – dizia um cantor chamado Memo Remigio em velha canzone  de 1965 e a capa do álbum um casal devidamente apaixonado em frente à catedral da cidade  italiana, o Duomo. A canção fala que mesmo com todo o congestionamento, confusão e anonimato da cidade grande, nas palavras da letra In questo posto impossibile Neste lugar impossível, o casalzinho se disse Ti amo.  Até compreensível – Milão é a Metrópole da Itália – talvez dispute esse posto com a vizinha Turim. E não se fale de Roma – bem maior mas uma cidade de burocratas e turistas. De duas burocracias na verdade – a do Estado Italiano e a da Igreja Católica, que se espelha bem além do Vaticano. Já Milão é a cidade da Moda – passei em frente ao Palácio do signore Giorgio Armani – e dos carros de luxo ao menos em parte – lá surgiu a Anonima Lombarda Fabbrica Automobile – pode pegar as iniciais e acrescentar o sobrenome de seu antigo dono Nicolo Romeo e se tem a Alfa Romeo.  Nada disso é Innamor...

Dublin Seus Fantasmas

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 Cheguei ao aeroporto de Dublin após dois meses de perambulação pela Europa e já pouco aguentava de frio, chuva, os três quilos do meu casaco coreano e falta de sol e trópico. O rapaz do guichê pediu o nome de meu hotel – hotel pequeno e novo, imaginei que ele não conhecesse. Conhecia, e me informou o ônibus. Aquilo me animou. Nunca tinha ouvido falar do rio Liffey mas em minutos estava na margem do dito cujo, a cidade em volta, meu hotel logo do outro lado da ponte. Cidade ocre, céu idem, talvez eu do mesmo modo, se me permitem a liberdade poética. Desabei as malas no hotel e logo eu passava em frente à Agência Central do Correio em busca de um supermercado. Os Correios, o palco da última batalha do Levante da Páscoa de 1916. Muita gente morreu lá – obeliscos heroicos e fantasmas na avenida principal. Lá perto, o museu das vítimas da fome dos anos 1840.  Aliás o país todo é marcado por fantasmas, e especialmente cinco. Nunca vi um país ser tão ligado a seus escritores. Há vár...

Leonardo nunca pegou o VLT 14

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  Leonardo [dizem] nunca tomou o 572, o ônibus Glória-Leblon que me conduzia em voltas pela Lagoa nos anos 80. Ou o Parangaba-Mucuripe (Grande Circular) que aproxima da praia o subúrbio. Compreensível pois nunca morou no Rio ou em Fortaleza. Mais italianamente falando, nem mesmo o VLT 14, do bairro de Lorenteggio até o Duomo, a praça da Catedral dessa Milão cheia de milaneses e turistas, no qual me espremo entre os milaneses (nessa banda da cidade pouco há de turistas) para adorar a Santa Ceia. Consegui desenlatar-me do 14 [o pessoal a trabalhar no Centro, eu nem tanto] e me encaminhei para a Basilica di Santa Maria delle Grazie. Esperei minha janela de tempo: 8:30. Em todo museu nos obrigam a uma xaropada de percorrer corredores de obras secundárias antes de ver o que viemos ver. Aqui, alguém chama. Ficamos, os daquela hora, um par de minutos na beira de um pátio. Uma porta se abre e alguém nos conduz a uma sala, e fecha a porta. Olhando à direita, a Santa Ceia. Magnífica, surreal...

Love you Lorenteggio

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Milano foi macia comigo. Comprar o bilhete da Trenitalia ainda no salão de bagagens do aeroporto de Malpensa com a sorridente italiana do balcão, sair a dobrar não à direita para a única lanchonete mas à esquerda onde há a estação de trem após a ruela. Ao chegar na fila de táxis na estação Cadorna no centro orgulhosamente pronunciar a primeira frase em italiano na vida: Buon Giorno, Via dei Vespri Siciliani, 7, prossimo a Piazza Napoli, per favore , e o taxista entender – tudo me fez feliz. Innamorato a Milano, como diz uma velha canção. Não sabia mas havia descido no coração de Lorenteggio – bairro desconhecido dos turistas  apesar de ficar a uns vinte e poucos minutos pelo ônibus 50 do Centro. Em pouco acostumei-me – a macelleria (açougue) logo em frente; o mercadinho dos indianos na diagonal; o restaurante dos napolitanos ao dobrar a esquina. Aliás neste fui o único turista – e o dono a falar com decibéis elevados e gesticulação ampla com dois clientes sobre certo jogo do Milan ...

Rock me Amadeus

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 Em 1985 invadiu as rádios de Viena a Fortaleza o refrão Rock me Amadeus repetido dezenas de vezes entremeado com uma batida pesada e um vocal descolado da melodia, em estilo rap avant-la-lettre. Quem tentava entender a letra não o conseguia– estava em alemão.  O vozeirão que entoava o mega-hit Rock me Amadeus pertencia a um rapaz de 27 anos chamado Falco. A Áustria é o único país do mundo cuja grande música é erudita – Wolfgang Amadeus Mozart e a família Strauss á frente. É até estranho que tenha surgido um roqueiro no meio daqueles palácios vitorianos de alinhamento racional. Mas surgiu. Não teve vida feliz. Passou dos 27 anos de Kurt Cobain, Janis Joplin e Amy Whinehouse, mas não muito – morreu aos 41 anos longe de casa, na República Dominicana. O espetáculo a que fui no Teatro Ronacher em Viena se chamava Rock me Amadeus e percorria a vida desse filho de mãe solteira que fazia rocks até o estrelato mundial e os inevitáveis conflitos com gravadoras e namoradas. E tinha uma ...

Manzoni não estava em casa

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  Ele tinha medo de gatos. Tinha medo de poças d´água. Ao sair pela rua ficava apavorado que o chão pudesse se abrir e o engolisse. Às vezes surtava e andava uns quarenta ou cinquenta quilômetros antes de voltar mais calmo e possivelmente exausto. Adotou rotina hiper-rígida que incluía precisos 25 minutos de caminhada antes do almoço. Tentei visita-lo em casa por três vezes, em nenhuma a encontrei aberta, apesar do aviso de que era aberta nos sábados à tarde. Malgrado as esquisitices ou talvez por causa delas Alessandro Manzoni escreveu um das Dez Mais da literatura italiana, o romance Os Noivos (I promesi sposi), um thriller avant-la-lettre em que narra as (des)aventuras de um jovem casal perseguido pela opressão espanhola nos tempos em que os espanhóis dominavam a Itália.  Genial. E uma genialidade de família. Ficou conhecido por Manzoni, o sobrenome do pai, que pouco conheceu e de quem se diz que nem era filho mesmo – seria filho de um namorado da mãe. E a mãe era filha de ...