Dublin Seus Fantasmas

 Cheguei ao aeroporto de Dublin após dois meses de perambulação pela Europa e já pouco aguentava de frio, chuva, os três quilos do meu casaco coreano e falta de sol e trópico. O rapaz do guichê pediu o nome de meu hotel – hotel pequeno e novo, imaginei que ele não conhecesse. Conhecia, e me informou o ônibus. Aquilo me animou.

Nunca tinha ouvido falar do rio Liffey mas em minutos estava na margem do dito cujo, a cidade em volta, meu hotel logo do outro lado da ponte. Cidade ocre, céu idem, talvez eu do mesmo modo, se me permitem a liberdade poética. Desabei as malas no hotel e logo eu passava em frente à Agência Central do Correio em busca de um supermercado. Os Correios, o palco da última batalha do Levante da Páscoa de 1916. Muita gente morreu lá – obeliscos heroicos e fantasmas na avenida principal. Lá perto, o museu das vítimas da fome dos anos 1840. 

Aliás o país todo é marcado por fantasmas, e especialmente cinco. Nunca vi um país ser tão ligado a seus escritores. Há vários museus para eles, tanto individual quanto em conjunto: Bernard Shaw, Yates, Oscar Wilde, Samuel Beckett e acima de tudo James Joyce. Este o mais dublinense de todos, a cidade cheia de seus vestígios; “aqui Joyce cortava o cabelo¨; “ali coçou a cabeça”.

Os museus mencionam só de raspão que nenhum desses cinco ilustres viveu muito na Irlanda. Como os cearenses de antigamente, basicamente nasciam na terrinha e só. Ficaram na forma de lembranças, ou de fantasmas, mas não sejamos excessivamente literários.




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