E Freud que nunca foi a Ipanema

 Levei-me ao Café Landtmann  e à falta de melhor em que pensar pensei em Freud. Também pudera, o velho Sigmundo frequentava esse lugar em Viena, a ver as mesmas paisagens: o Burgtheater, o teatro da cidade, onde tentei ver uma horrível montagem de Hamlet; a Rathaus, que não é a Casa do Rato mas do Conselho (é o significado de Rat), a câmara de vereadores; e o Ring, o anel de avenidas que circunda o centro velho da cidade. Aqui ele pedia um vinho tinto, derramava papos psicanalíticos com sua curriola de médicos e seguia para seu enorme apartamento hoje museu. Nem um quilômetro de caminhada breve.

Breve e soturna, com os prédios baixinhos e pesadões a datar do século XIX e as árvores à noite a projetar sombras e ainda bem que não peguei neve. Provavelmente batia os pés para sacudir o gelo, pendurava os três quilos de casaco no cabide, olhava para as ruas escuras com árvores sem folhas e passantes apressados e a partir daí criou uma teoria de que todos os humanos são prisioneiros de sombras que vêm da infância.

Provavelmente nenhuma outra teoria poderia vir de Viena. Freud nunca passeou pelo calçadão do Mucuripe, nem tomou água de coco na Praia do Forte ou sujou os pés na areia de Ipanema. Se o tivesse talvez pensasse em um mundo onde seríamos prisioneiros de coisas talvez mais agradáveis como biscoitos de polvilho, surfe ou bronzeadores. Bem, não deixaria de ser uma prisão, talvez pensasse. Melhor talvez, mas isso seria discutível.




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