Manzoni não estava em casa

 

Ele tinha medo de gatos. Tinha medo de poças d´água. Ao sair pela rua ficava apavorado que o chão pudesse se abrir e o engolisse. Às vezes surtava e andava uns quarenta ou cinquenta quilômetros antes de voltar mais calmo e possivelmente exausto. Adotou rotina hiper-rígida que incluía precisos 25 minutos de caminhada antes do almoço.

Tentei visita-lo em casa por três vezes, em nenhuma a encontrei aberta, apesar do aviso de que era aberta nos sábados à tarde.

Malgrado as esquisitices ou talvez por causa delas Alessandro Manzoni escreveu um das Dez Mais da literatura italiana, o romance Os Noivos (I promesi sposi), um thriller avant-la-lettre em que narra as (des)aventuras de um jovem casal perseguido pela opressão espanhola nos tempos em que os espanhóis dominavam a Itália.

 Genial. E uma genialidade de família. Ficou conhecido por Manzoni, o sobrenome do pai, que pouco conheceu e de quem se diz que nem era filho mesmo – seria filho de um namorado da mãe. E a mãe era filha de Cesare Beccaria, filósofo e jurista que, se hoje a tortura é repelida como método investigativo e a pena de morte é em geral repelida, isso se deve em parte a ele. Deveria ser Alessandro Beccaria, a família à qual realmente pertencia.

Quanto às vezes em que fui ao seu Museu em Milão e o encontrei fechado e não falei com o próprio, é natural pois morreu faz 150 anos. Mas se vivo estivesse, com todas as suas peculiaridades, talvez estivesse escondido atrás da porta a esperar que eu desistisse, vai saber.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Arroios as Nações Unidas de Lisboa

A Lusitana gira o Mundo

Cícero e o Papa Leão