Pigalle que não mudou

 Georges Ulmer em velha canção falava de um certo Pigalle. Um certo – para mim era difícil me aventurar do outro lado do Sena. Tinha poucas semanas, muita Paris para conhecer e esse bairro Pigalle me parecia do outro lado do Mundo.

Mas fui. Levado pela curiosidade de ver como as coisas mudam. Georges cantava os engolidores de fogo, malabaristas, traficantes de cocaína (os males não eram tão conhecidos na época) e moças que vendem beijos. Claro, no Pigalle de 1944. Há muito, pensei, tudo mudou. Escolhi um ônibus pelo aplicativo e tomei caminho.

Via os boulevards a deslizarem pela janela, Paris como sempre. De repente vi uma sex-shop. Visão um tanto rara na cidade. Grandes vitrinas. Mas o curioso é que ao lado havia outra. Também ao lado, mais uma. O ônibus parou. Distraído, nem percebi. Quando um senhor que descia me cutucou a canela com a bengala – C`est ici, Pigalle! – era o ponto final.

Georges Ulmer em princípio tinha razão – lá estava a estação de Metrô. Mas também sex-shops. E um teatro de strip-tease. Outro teatro com a mesma especialidade. E restaurantes que passam a madrugada abertos, ótimos para farristas, pensei. 

Era meio-dia. Escolhi uma birosca turca e enfrentei o Kebap de frango. 

Não vi traficantes, malabaristas e nenhuma mademoiselle quis me vender beijos, mas fiquei com a impressão de que Pigalle não mudou tanto, afinal. Talvez algum filósofo francês aproveitasse essa deixa para meditar sobre a Permanência Essencial das Coisas, mas, bem, eu não sou filósofo.




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