A Guerra que não aconteceu enquanto eu estava lá

 

“Bolivianos! El mar es nuestro por derecho. Es nuestro deber reconquistarlo!” Eu espiava o cartaz de propaganda de serviço militar na parede da estaçãozinha do apelidado “Trem da Morte”. Não só os dizeres mas o desenho – as belicosas palavras ilustravam uma praia sendo invadida desde o interior por tanques, soldados e aviões.

O Homem aos Vinte e Sete anos se sente imortal e eu tinha vinte sete em Corumbá, fronteira com a Bolívia, quando resolvi passear depois de defender a dissertação de mestrado, sem reserva de hotel nem nenhuma das precauções que hoje me atulham as viagens.

Tive o primeiro contato com a raposice política histórica. O natural seria que Corumbá estivesse do lado de cá do rio, este seria a fronteira lógica. Mas o espertíssimo Marques do Pombal mandou fundarem a cidade do lado de lá para ganhar mais um terreninho. Marquês Raposa.

Tomei a vacina contra a febre amarela e lá fui, poucos quilômetros dentro da Bolívia, em estação chamada Puerto Quijarro. E lá estava o cartaz. Eu sabia vagamente de uma questão fronteiriça com o Chile. Algo como um trecho de mar que teria sido perdido em guerra e transformara a Bolívia em país trancado. E pelo tal desenho os soldados invadiam vindos da terra, não do mar.

Pensei: Bem, ou estou entrando em país às vésperas de uma guerra, caso em que a barra sempre pesa para os estrangeiros; ou... essa retórica acontece todos os anos e ninguém dá importância. Era o segundo caso. A Bolívia continua sem mar e eu continuo vivo. Menos mal.

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