A Mulher Ideal para Baudelaire

 O poeta Charles Baudelaire [dizem] percorria as ruas da cidade em duas buscas – da velha Paris e da Mulher Ideal para Charles Baudelaire. [Na verdade não dizem: ele mesmo e seus companheiros de geração maldita testemunharam sua figura esguia a perambular sob os arcos do Triunfo ou à sombra da Notre Dame]. Não podia imaginar [e nem tinha por que] um cearense quase um par de séculos depois em um café na esquina de Harpe com Huchette pensaria nele e na sua figura esguia a perambular por aqueles mesmos lugares.

Ou quase os mesmos. A Paris que conhecera o poeta não a encontrou “A velha Paris não é mais (a forma de uma cidade / muda mais rápido, hélas! que o coração de um mortal)”. E os becos e pobres foram expulsos para alargar a Champs-Élysées dos turistas. 

Quanto à Mulher Ideal posso imaginá-lo na calçada na qual eu sorvia meu cappuccino com um croissant. Ou talvez preferisse o Palais Royal entre as távolas de jogo [era o cassino da época até ser proibido] ou as carruagens das nobres decadentes do Boulevard Saint-Germain depois cantadas por outro andarilho de outro naipe,
Marcel Proust. Ou pode tê-la procurado em patriótico desfile de 14 de julho entre bandeiras tricolores e inúteis desfiles de cavalaria em louvor a batalhas e revoluções.

Mas ao pagar a conta e levantar do café, penso que ele afinal concluiu que a Mulher Ideal para Charles Baudelaire seria aquela que tomasse uma rodada de absinto em uma taverna de má fama com Charles Baudelaire.




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