Alfama a Inconhecível
A Alfama desafia o geômetra grego Euclides: por lá a reta nunca é o caminho mais próximo entre dois pontos. Olhar o mapa e dizer É só ir em frente é se condenar a horas em becos em que se pergunta se se esteve ali.
O bairro medieval de Lisboa foi
salvo pela sua própria geologia do terremoto de 1755, que arrasou a parte Baixa
da cidade e poupou seus altos, os altos nos quais os árabes fizeram um aranzel
de ruelas nas quais comecei a me escarafunchar a sério na melancólica Lisboa da
pandemia.
Viajei-a [pois a Alfama não se
visita, se viaja] pela vez primeira em 1994, outro milênio, outro tempo, outro
eu. Nada sabia: só que o Autocarro pararia em certo Largo que depois soube que
era em frente ao Museu do Fado. Esse largo é a fronteira entre a cidade lógica
e atual com seus metrôs e pistas de velocidade e a cidade como era quando os
cavaleiros de Afonso Henriques por lá forçavam com seus cavalos armados a gente
a se espremer para o lado.
Certo, os cavaleiros lá não mais cavalgam
e os árabes medievais só deixaram seus nomes (Alcáçova, Medina, Alfama, olhem o
prefixo Al). Mas os becos lá estão. E pedaços de muralhas. E turistas – não, esses
são novidade.
Sim, a Alfama não é mais a mesma.
É o que todos dizem. Provavelmente nunca foi. Sempre esteve a se transformar.
Antigamente os almocreves se perdiam entre seus becos, hoje são os ingleses e
suecos com seus óculos escuros, amanhã quem sabe. E seja quem forem, nunca chegarão
a conhecer inteiramente a Alfama. Ninguém conhece.
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