As lambretas da velha Itália

 

Lambretas! Quem se lembra delas? E quem as esquece? Esse veículo de pequenas rodas a convidar um acidente ao mínimo desnível da rua e a frente chapada de cor metálica sem graça (certo, as de hoje são pretas, mas vá) – puxam uma Itália por poucos vivida e por muitos não esquecida.

Já estava havia um par de dias e Milão não estava sendo muito Milão. Certo, havia os bifes à milanesa, a catedral e os chocolates hiperdensos mas faltava algo – e só senti o que o faltava quando o sinal fechou em frente ao Teatro alla Scala e à frente dos carros se acumularam duas, três, quinzes lambretas.

 

As lambretas na minha memória puxaram tudo: Rita Pavone a exigir datemi um martelo, Gigliola Cinquetti a choramingar Dio come ti amo e até Bobby Solo num vozeirão capaz de endireitar a Torre de Pisa a bradar Prendi questa mano, Zingaraaaaaa... além de blusões de couro, cigarros em rapazes de cabelo rente e garotas esguias na garupa, de gola rolê e penteado rabo-de-cavalo, esta era a Dolce Vita da Itália dos anos 60. Ou era assim nos filmes de Fellini. Certo, havia as soturnidades de Pasolini e o cinema político, o sorriso de João XXIII e a melosa política italiana mas tudo era Itália, tudo era anos 60.

Mas enfim, a Vita talvez não fosse tão dolce, o velho João há muito é história, as motos invadiram o mundo na esteira do transporte público deficiente, o cinema político caiu de moda e talvez até Rita Pavone quisesse me dar com o martelo na cabeça, pois afinal eu não sou Marcelo Mastroianni. Bem-feito.

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