Bem-vindo ao Rio Grande
Minhas impressões de lá são como um daqueles filmes de cineclube – um retalho de cenas mais insólitas que interessantes. Começou na Rodoviária de Porto Alegre. Em uma das caixas da enorme bateria de guichês disse que queria comprar uma passagem para São Miguel das Missões. A moça respondeu
- Não existe esse lugar.
Assim mesmo, convicção total e me
senti como em um conto fantástico de Borges [que como argentino não era de
muito longe dali] como algum peregrino em busca de uma terra que só existe na imaginação
de alguns teólogos medievais. Balbuciei que São Miguel das Missões existia, eram
as missões, sabe, aquelas antigas, jesuítas, índios guaranis, o filme “A Missão”
de Roland Joffe, etc. De nada valeu. Tive de ir à chefe das caixas, que sabia que
a cidade existia. Talvez tenha assistido ao filme. Perguntou o nome da caixa
pouco informada, mas não disse. Não queria provocar a demissão de ninguém.
A segunda impressão foi na
rodoviária da cidadezinha. O ônibus parou, desci com minhas malas, quando olhei
para trás o ônibus já partira. Procurei um táxi e a rodoviária já fechara – era
o último ônibus, eu o último passageiro e o último ou único empregado já se
escafedera. Tive de arrastar as malas a ladear as belas ruínas da igreja da
Missão até a pousadinha. O calor passava de qualquer coisa que eu já experienciara
no Ceará. Na portaria uma jovem tomava chimarrão. Com aquele calor.
- Coitado, está morto! – disse ela
a entortar os erres.
Bem-vindo ao Rio Grande do Sul.


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