Em Paris com estátuas

 “A seis meses atrás, em Paris, descobri que não conhecia ninguém além das estátuas. Tive altas conversas com Voltaire, com Comte, com Descartes. Não sei se algum dia virão a público esses diálogos que iluminaram uma quadra muito infeliz e improdutiva da minha vida”.

José Ortega y Gasset escreveu essas palavras acima em 1936, em uma aldeia de nome impronunciável na Holanda. [Ou não as escreveu exatamente – cito de cabeça pois estou longe do meu livro, mas foi quase isso]. O jornalista e filósofo tivera de sair da sua Espanha por um problema de envio, por assim dizer. A Espanha estava rachada pela guerra civil. Os católicos por um lado queriam enviá-lo mais cedo para o Inferno, ou o Céu, quem sabe. Os comunistas por outro não queriam enviá-lo para os mesmos lugares pois não acreditavam em nenhum deles mas desejavam que sumisse do Planeta Terra. Considerando péssimas as duas alternativas ele se exilou em Paris.

Por mais de uma década revirei prefácios de edições de “A Rebelião das Massas”, no qual eu lembrava que lera isso. É seu livro mais conhecido. Não encontrava. Cheguei a pensar que que quem tinha criado diálogos fictícios era eu. Até que encontrei, em edição velha.

Este trecho sempre me comoveu. Esses grandes personagens às vezes não parecem humanos: conhecem sempre gente importante, não perdem o ônibus nem têm unha encravada. Esse pensador espanhol viveu a experiência muito humana de se sentir só em terra estranha. Como eu, tu e nós. Em Paris, ou qualquer outro lugar.




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