Mafra que não aconteceu

 Mafra, não há problemas em Mafra. Ou houve um, pelo menos do meu pequeno ponto de vista. Que aconteceu em junho de 1970. Ou poderia ter acontecido, mas não.

Mafra queda a poucas dezenas de quilômetros de Lisboa e a UNESCO, os guias nos autocarros (ônibus) das empresas de turismo e o Memorial do Convento de José Saramago não cessam de dizer (não sem pompa) que se trata de Patrimônio da Humanidade. De fato o Convento-Palácio de Dom João V impressiona, é dos maiores palácios que já vi, que qualquer um já viu.

E o que aconteceu nesse portentoso em junho de 1970? Nada, e esse é o problema. Não foi mês especial para Mafra nem para ninguém nem mesmo para mim que nele completei oito anos.

Muitos anos depois já maduro fui a Mafra. Subi ao segundo andar do Palácio. E me vi em corredor que percorre a fachada longitudinalmente em perspectiva iluminista perfeita de arcos barrocos seguidas por outros arcos barrocos, que ocultam pinturas de ninfas espremidas entre esculturas de elfos. E eu sabia que lá não havia risco nenhum.

E eu senti saudades. Gostaria de ter lá estado quando tinha oito anos, tempo em que os fantasmas existem. Teria me dado muitos frios na espinha. Cada pintura uma máscara, cada escultura um horror, atrás de cada portal uma alma penada do outro mundo. Morreria de medo. Talvez chorasse. Talvez corresse. Mas nunca teria esquecido.

Quando fui a Mafra os fantasmas já não existiam. Uma pena.

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