Realeza a do leite
E eu não sabia onde ficava Realeza. Não o sabia há meio século e, confesso, continuei sem sabê-lo até cinco minutos atrás, quando procurei pelo mapa do computador. Eu e os doze anos que tinha quando a vi pela última vez nos lembramos apenas de um sabor: essa cidadezinha do interior de Minas tinha o melhor leite do mundo. Servido em copo de vidro, sobre a banca de metal, por atendentes de branco, que se engalfinhavam em dar vazão aos ansiosos fregueses que cada ônibus interestadual despejava e que meia hora depois recolhia a esvaziar o ambiente.
Por duas vezes passei por Realeza
no Ônibus semileito Fortaleza-Rio, cada vez em ida e volta. Da primeira, em
1972, pouco lembro. A segunda, com doze, em 1974, marcou-me. O Ônibus da há
muito inexistente Expresso Fortaleza parava nesse lugarejo mineiro para uma
pausa. Depois entendi por quê: é o cruzamento entre a Rio-Bahia e a
Vitória-Belo Horizonte. Com os ossos maltratados por umas trinta horas de
viagem-tortura os passageiros se acotovelavam para os banheiros e depois para o
balcão metálico da lanchonete. E eu me deliciava com o leite quente. Um néctar,
um tanto escuro, vá.
Como as coisas podem não mudar
mas nossa percepção sim, agora sei que esse toque meio escuro era porque o
leite era fervido e refervido e mais uma vez. Quanto ao sabor, talvez nem fosse
tudo isso, ou só o efeito do cansaço. Aos doze o mundo é assustador e até um
leite na beira de estrada no interior de Minas é fantástico. E talvez fosse
mesmo, lá sei.


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