Acampamento Almofala

 


Os árabes (talvez aqueles da península ibérica) falavam Al-Mahalla quando queriam dizer acampamento ou lugar onde se residiu algum tempo. E eu ao descer daquele ônibus no calor cearense depois de umas seis horas a partir de Fortaleza e a sentir a brisa salobra do mar lá perto não tinha a mínima ideia de como aquele nome tinha vindo batizar aquela aldeiazinha praiana indígena com uma doce corruptela brasílica: Almofala.

Uns dizem que foi em 1712, outros em 1760, o fato é que o distante rei português determinou que se construísse a Igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Tremembés. Os tremembés – ainda hoje a tribo está por lá, esbatida mas não sumida.

Visitei a praia de Almofala e sua Igreja de um barroco ingênuo e tocante, mas o mais curioso foi conviver com uma comunidade pesqueira. Na maré baixa eu vi paliçadas cravadas na areia do fundo. Eram currais – peixe entra em labirinto e não sai.

Vi um menino no mar raso, entre duas estacas no mar. Perguntei o que fazia. Ele me respondeu: “me ajuda a iscar?” e eu levei a cuia com pedaços de peixe que ele espetava nos anzóis que pendiam da corda entre as duas estacas. O processo era simples. Maré baixa, os anzóis iscados pendiam no ar. Maré alta, os anzóis mergulhavam na água, os peixes mordiam – e lá viria o mesmo garoto a pegá-los depois que a maré descesse de novo.


Processo antigo, eficiente. Quanto aos árabes, não sei se lá era um acampamento. Não para os tremembés – ele e sua velha igreja parece que não sairão nunca dali.

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