Amarcord Viçosa
Acordei muito cedo, ninguém em pé. Era domingo. Ainda de pijama saí à calçada, cheguei à esquina da Praça da Matriz. E mal pude ver as copas das árvores frondosas – estavam esmaecidas pela neblina. Era a primeira vez que a via e, ser praiano tropical que eu era, apelidei aquilo de “nuvem baixa”. Fazia sentido. Viçosa do Ceará fica em uma serra, já perto da divisa com o Piauí. Como a cidade era alta, natural que as nuvens ficassem na altura de cidade.
Essa é a climatologia de quem tem
oito anos, e essa era minha idade. Minha visão daquela cidade – daquela cidade
daquele tempo – não é linear - são pequenas impressões ou impressões de uma
pessoa pequena.
De vez em quando me colocavam em um carro e me levavam por uma estrada. Os carros eram de uma empresa e me lembro de um deles, um automóvel comprido com espaço para carga muito comum na época, que se chamava Chevrolet Veraneio. Havia dois motoristas, Ernani e Gil. Certa vez esse Ernani acordou no meio da tarde lá em Viçosa. Não ouviu nada. E apurou o ouvido e nada. Gritou: “Fiquei Surdo!” E ouviu o grito e concluiu que não estava surdo. Silêncio completo – Viçosa era assim.
Fellini dirigiu “Amarcord”, um
filme de sua infância na época do fascismo lá nos cafundós da Emilia Romagna. Filme
de pequenas cenas quebradas. Essa palavra não existe em italiano, significa Eu
Recordo em algum dialeto. Há surpreendentes semelhanças – aqui era uma
ditadura, a neblina cobria a cidade – e eu também recordo.
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