Brasília Quarta-feira Oito horas
"De onde vem todo esse trânsito”? perguntei ao Uber enquanto voávamos na rodovia a caminho do Museu do Catetinho. Na nossa faixa. No sentido oposto um jumento manco transportaria mais rápido que os carros parados. Era o começo da manhã e era Brasília.
“Valparaíso, doutor” – Não fica
no Chile? pensei em meu desconhecimento.
“Valparaíso, Park Way, Gama”... –
Continuou o rapaz. Conversador. Park Way? Pensei de novo. Não haveria nome
melhor para um bairro na capital de um país lusófono? À direita crescia uma
mancha de cimento, uma cidade com os prédios inutilmente elevados da maioria
das grandes cidades brasileiras. “Aquela é Taguatinga?” perguntei. Era a única
subcidade que eu conhecia de nome.
“Não, Águas Claras. Essa aqui é o
Núcleo Bandeirante” – e apontou para uma mancha um pouco menor. Não muito.
“Moto” – disse o motorista ao apontar para um grupelho de ambulâncias e homens de colete de paramédico na outra pista. – “Todos os dias pegam um”. Antes que eu respondesse outro acidentado apareceu logo adiante, sempre na outra pista, sempre mais engarrafamento atrás. – “Tá vendo?” – disse meu provisório guia, orgulhoso de sua capacidade de previsão de desgraças automotivas.
“Depois das dez melhora, doutor” –
disse-me quase como consolo ao me deixar no Museu. Melhora – os dois coitados vítimas
do dia já deveriam estar em hospitais. E o trânsito continuaria a rugir no mesmo
asfalto.
Dei-lhe uma boa gorjeta. Mas pensei
– será isso mesmo que Lúcio Costa e Oscar Niemeyer pensaram??”


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