Bruxelas Poesia e Batatas

 

- É “Stump”, disse ele a esticar o “u”. – Estávamos na Galerie Saint-Hubert na confluência com a Galerie des Princes, perto da inevitável Grand Place em Bruxelas com seus sobrados do século XVII conhecida dos turistas e não longe do manequinho, aquela estatuazinha a fazer pipi eterno na qual não acho muita graça mas os guias de turismo acham [devem ter alguma razão, afinal estamos em uma democracia]. Eu vinha da livraria Tropismos a sobraçar minhas recém-compradas coletâneas do trágico poeta Émile Verhaeren [depois falo mais desse melancólico talento que um dia dedicou um livro “Com Emoção, ao homem que costumava ser”] e arriei na cadeira do primeiro Café que encontrei, atormentado pela conhecida dor no calcanhar.

Na distante Fortaleza eu fazia um prato, “Stoemp”, e lá estava ele, típico belga. Pedi-o. O garçom me corrigiu a pronúncia. Simpático, na verdade. Eu pronunciei à maneira alemã, como se houvesse trema sobre o “o” e ele respondeu à maneira flamenga, com “u”. E trouxe o prato.

Bem, há dois Stoemp [na verdade um purê misto de batata e cenoura]: o meu e o deles, este com pedaços grandes de cenoura [detesto isso, lembra-me uma infância de insossas sopas de verduras] e com muita, muuita manteiga [ao menos mais que a minha]. Por isso o deles é mais delicado. Quanto à saúde... Não é do meu gosto, mas estamos numa democracia, lá também [não é à toa que Marx e Vítor Hugo moraram em Bruxelas], e foram eles que criaram o prato – eu só o transformei em meio cearense, creio.

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