E assim surgiu Babel
Há fronteiras dentro de uma fronteira e foi aquela viagem para o extremo-sul do país que mo ensinou. O limite entre o Brasil e o Uruguai é dado pelo Arroio Chuí – isso eu sabia desde o quarto ano do primário ou menos. Mais especificamente, de um lado fica Chuí, e do outro Chuy, a nossa e a deles, duas cidades divididas por colunas de cimento que hoje formam o canteiro central de uma avenida.
Bem perto, mais para dentro do
Brasil, há outra cidade, Santa Vitória do Palmar. Lá morava o rapaz porteiro do
hotel. “Essa é toda brasileira. Chuí é brasileira mas tem 90% de uruguaios”.
E eu pude ouvir isso no português
pesadíssimo dos outros empregados do hotel. Entre as duas cidades havia uma
fronteira linguística antes da fronteira política, entre o português e o guasca,
o linguajar misto português-espanhol da fronteira.
Eu falava. Não entendiam. Eu falava
de novo. Entendiam parte. E o cansaço me foi vencendo. Aos poucos eu já
espanholava minhas palavras, Falava ocho para dizer oito, e nosotros no lugar
de nós. Entendi o mecanismo de criação de um dialeto, ou de uma língua. O mero
cansaço, ou a imperativa necessidade de se comunicar.
Em Chuí compreendi como surgiu o
guasca. E o espanhol. E o português. E Babel inteira.


Comentários
Postar um comentário