E eu que não conhecia Vila-Vila

 

Quando se tem vinte e cinco anos se está no topo do mundo. Às vezes literalmente, ou quase. Era essa a idade que tinha quando o trem que tomei em Cochabamba com destino a Potosí parou nesse lugarejo no interior da Bolívia.

Eram aqueles tempos em que turistas brasileiros não eram assim tão comuns, e quanto a migrantes, bem, até os anos 80 o Brasil absorvia populações, e não as expulsava – havia poucos a morar no exterior. Um brasileiro podia viajar audaciosamente para lugares onde nenhum homem (ou nenhum nacional) jamais esteve, para lembrar a abertura de Star Trek, o Jornada nas Estrelas.

E era assim que eu me senti quando o trem descarrilhou naquela estação perdida no Andes. Literalmente quase no topo do mundo – de fato a maior parte do mundo se situa abaixo dessa aldeiazinha boliviana no Departamento de Cochabamba. Descem os passageiros, os empregados da ferrovia a acenar com orientações enquanto o maquinista rangia a locomotiva a fazer movimentos de ida e vinda nos vagões para reencaixar as todas nos trilhos. Mulheres de roupas coloridas e filhos amarrados nas costas no melhor estilo boliviano espelhadas pela pequena estação. E eu pensava Como Estou Longe! E Como Nunca Ninguém Esteve Aqui. (Hoje penso diferente: Como somos tolos aos vinte e cinco anos. E Antes Deles. E Depois Deles.)


O heroico maquinista reencaixou a roda e partimos. Eu também me sentia herói, mas isso é coisa de menino.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Arroios as Nações Unidas de Lisboa

A Lusitana gira o Mundo

Cícero e o Papa Leão