Entre dois países, com um navio a se aproximar

 


De um lado o Brasil. Do outro o Paraguai. No meio, o rio. No meio do rio nós, nosso pequeno barco. E a se aproximar de nós aquela enorme forma inexorável como o Destino em tragédia grega. Só que não.

Confesso, Porto Murtinho me antipatizou antes mesmo de lá chegar – por causa do nome, Murtinho – ministro da Fazenda da virada do século XIX ao XX, inimigo da indústria nacional, fazedor de recessões.

Que nada tem de culpa de seu nome. Tem umas particularidades. Na pousada havia refrigeradores muito potentes do lado de fora dos quartos. Depois descobri: eram pousadas para pescadores, que já poderiam congelar seus peixes sem precisar entrar com eles nos quartos. Fiz amizade com alguns pescadores. E na praçola central ao lado do rio havia uma geladeira – para que as pessoas pudessem fazer seu tereré lá mesmo – e esse é um mate gelado muito popular. Fiquei a pensar o quanto tempo aquela geladeira estaria ainda no lugar em uma grande cidade.

Acenei para os pescadores que conhecera, na pousada. Gritei: vou para o Exterior! E era verdade.


Tomei o táxi aquático. Tripulação de um homem e um garoto. Eles se falaram e não entendi lhufas. Aquilo não era espanhol. Era guarani. No meio do rio uma chata de minério. Nosso barquinho tartaruga a travessar e aquela coisa vindo direto. Eu olhava meus tripulantes guaranis e nenhum se afogueava. E passamos, sem problema, quase para minha surpresa.

Do outro lado um orgulhoso emblema da Armada Nacional paraguaia – um país sem mar, mas vá.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Arroios as Nações Unidas de Lisboa

A Lusitana gira o Mundo

Cícero e o Papa Leão