Os fantasmas das ruas de Milão
Parece nome de peça de Shakespeare ou Alexandre Dumas filho – nenhum dos dois priorizava o conhecimento antropológico dos países ao desenvolvimento dos enredos que faziam. Mas Milão tem fantasmas nas ruas – e não me refiro a Mussolini, que tardiamente recebeu o tratamento de salame pendurado de baixo a alto em uma praça sem nenhum sinal.
O primeiro deles veio logo na
estação de trem de chegada a partir do aeroporto – Cadorna. Luigi Cadorna foi
um general da Primeira Guerra Mundial, estúpido como todo general da Primeira
Guerra Mundial e cujo grande feito e única tática era jogar soldados aos
borbotões contra metralhadoras e fortificações com a filosofia de Não deu
certo, tenta-se de novo. E tentar ele o fez. Onze vezes fez a batalha em um
lugar só, o rio Isonzo. Com o sangue dos outros é fácil.
Da estação Cadorna tomei um táxi para a frua dos Vespri Siciliani, uma revolta que ocorreu lá pelo século XIII quando sicilianos revoltados contra ocupantes franceses galanteadores mandaram alguns para as regiões eternas mais cedo. Esse episódio se escondeu em livros bolorentos até que o pessoal do Risorgimento o recuperou, Verdi à frente, que compôs inevitavelmente uma ópera a respeito.
Fora os fantasmas célebres. Perto
do alojamento eu almoçava na Viale Tolstoi e tomava o ônibus 50 na Piazza
Bolívar. Muitos fantasmas, muitas lembranças, a história da cidade e eu, que
não sou fantasma nem Shakespeare nem Dumas mas por enquanto estou aqui.
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