Os fantasmas de Saint-Michel

 

Ah, o Café Saint-Paul do Boulevard Saint-Michel ! “No coração da Rive Gauche, a romântica Zona Boêmia de Paris” como dizem as agências de turismo, e nisso as agências de turismo pela primeira vez não mentem. Ou ao menos não muito. A tomar meu cappuccino e croissant com manteiga ao lado do sebo (bouquiniste) e a ver os VLTs passarem a caminho de Montparnasse penso que, mais que romantismo, o Café e sua região me lembram fantasmagoria.

Fantasmagoria parisiense, claro, de charme. Nada de monótonas visagens de tias velhas ou de pedras jogadas no telhado. O próprio reto e largo Boulevard Saint-Michel me lembra por que o Barão Haussmann mandou demolir a semi-favelinha que por lá havia e construir uma avenidona tão larga e reta. [Esse Barão foi o destruidor da velha Paris e o construidor da nova, na transição anunciada e lamentada por Baudelaire]. Trata-se demanda política. Os pobres de Paris tinham o péssimo hábito [de acordo com os ricos de Paris] de tirar o sossego desses últimos em revoluções sucessivas. E elas aconteceram: 1789, 1830, 1848... até que Napoleão III [o sobrinho do outro, o baixinho de Waterloo] mandou o barão demolir aquelas ruelas ótimas para revolucionários se entrincheirarem, e construir uns espaços abertos perfeitos para pobres revoltados virarem alvos móveis.


E assim surgiu o Boulevard, cercado de fantasmas de revolucionários de diferentes levantes, e que eu ignoro enquanto tomo meu cappuccino com um croissant no Café Saint-Paul do Boulevard Saint-Michel.

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