Aquela esquina naquela Paris

 

O mundo precisa conhecer a esquina da rue de la Huchette com rue de la Harpe! Eu sequer desconfiava que existia quando desembarquei em Orly, embromei até chegar a hora do hotel, comprei um bilhete múltiplo para o metrô com uma simpática francesa no quiosque turístico que desafiou a lenda de que os parisienses são chatos. Logo depois eu sacolejava na Ligne 14 do metrô a estalar de nova e de atraso, inaugurada que fora meses antes para os jogos olímpicos.

Emergi a arrastar as malas na estação Saint Michel – Notre Dame – depois soube das razões óbvias: fica ao lado do Boulevard Saint-Michel e a duzentos passos da Notre Dame. Mas só quando despejei minhas malas no hotel e saí para compras em mercadinho inicial levantei a cabeça e vi Paris. E por falar em cabeça, era a mesma Paris que virou a cabeça de Hemingway, cujo hotel fica X com o meu, na Huchette – a mesma rua em que Chet Baker e os músicos negros estadunidenses do jazz se instalaram nos anos vinte e fundaram night-clubs que ainda funcionam. Essa é até hoje a rua do Jazz em Paris.

A mesma rua de Ionesco – ou melhor, a rua com um teatro que passa as mesmas peças de Ionesco desde 1957, “A soprano calva” e “A lição de casa”, com tudo o mesmo exceto os atores, como disse o sorridente apresentador no teatro. Que não teve Napoleão como espectador por questão histórica, não geográfica – ele morou na mesma rua.


O mundo já estivera naquela esquina. Eu é que não. Acho que o Mundo já sabia o que era fascinante.

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