Pelos Cafés do Mundo: Landtmann, de Viena

 

“Só Deus e os morcegos habitam a Igreja de Nossa Senhora da Corrente...” e no Café Landtmann lembrei desse verso. Ledo Ivo o escreveu em Penedo, Alagoas, e eu estava sentado à mesa na beira do Ring. É a avenida que forma um cinturão em torno do Centro de Viena a apertá-lo contra o Danúbio. À minha frente o Burgtheater, que é o Teatro da Cidade, a Universidade de Viena e a Rathaus, que não é Casa do Rato mas do Conselho. Esse é o significado de “Rat”. É a Cãmara de Vereadores da capital da Áustria. Tudo construído pela segunda metade do século XIX em estilo falsamente antigo.

“Só a Bruma e os Fantasmas frequentam o Café Landtmann...” – poderia dizer eu sem gosto nenhum e certo exagero – era outubro e não havia brumas. Quanto aos fantasmas, bem, não existiam aqueles ridículos de lençol e correntes a arrastar. Mas era difícil não pensar neles mesmo esperei o Herr Ober [maitre] trazer o meu prataço de Kaiserschmarrn [uma panqueca metida a besta] com o inevitável chocolate quente e a água com gás.

Pedi e esperei e olhei a avenida – e lembrei de Freud, que fez o mesmo uns cem anos atrás, o mesmo café, mesma avenida, talvez mesma mesa. E Stefan Zweig – quase brasileiro como eu, que veio a ter morte trágica. E a fascinante Marlene Dietrich. E tantos e tantas. Tantos gasparzinhos me fizeram incomodado.

Chegou minha comida, devorei-a. Ficamos lá, eu, a avenida, as panquecas e os fantasmas de Viena. Felizmente sem morcegos. E talvez até Deus, mas Freud não acreditava nele, fazer o quê.

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